águas e pedras

Por: Luiz Cruz de Oliveira

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Na cabeça do pai, a mãe desenhou sonho que ele coloriu devagarinho. Uma tarde, chegou da lida, falou firme.

— Chega de sofrer na roça.
 
Vendeu todos os bens para o vizinho: a vaca Urubua e o cavalo Macaco, arreado. Veio para a cidade e o monte do calvário ficou mais distante por culpa das pragas dos parentes – a mãe dava garantia. Houve catorze quedas, mas o pai ficou maior.
 
— Pra ficar em pé, primeiro precisa ficar de joelho, filho.
 
O filho não tinha gaiola nem cachorro, viajou de mão abanando, os olhos arregalados se enchendo de novidade no caminhão de leite, na jardineira.
 
Um dia, quando os pés descalços e as calças curtas eram pó, ele fez descoberta: trouxera no peito a Serra Saudade e, nos olhos, o Córrego das Pedras. A consciência chegou numa hora ruim, de abalo sísmico que deslocou todas as entranhas. Chegou numa noite de solidão amarga em que, pela primeira vez, sentiu vontade de se matar.
 
O desespero foi, porém, afogado e soterrado.
 
Desde então, vem convivendo com convulsões, com desmoronamentos no pé da serra, com transbordamentos do córrego.
 
Mas, sozinho embora, deita-se na fralda da serra, ao lado do córrego, e faz rabiscos.
 
Acredita que ainda desenhará como a mãe e, quando conseguir isso, utilizará milhões de lápis de cor.

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