Para o meu melhor amigo

Por: Isabel Fogaça

342870

Meu melhor amigo será pai em março. Eu me lembro da primeira vez que o vi tímido empurrando um carrinho de compras no supermercado em meados de 2007, e ao invés de ignorar a presença de um estranho e focar na melhor marca de sabão em pó, uma voz vinda do meu interior sussurrou: “diga oi” e foi o que eu fiz, causando uma estranha simpatia entre nós. Em 2009 estudávamos juntos, e um ano mais tarde já nos considerávamos melhores amigos, e agora ele será pai.

O Guilherme me ensinou muitas coisas nessa vida. Ele já leu a Bíblia três vezes e não é um fanático religioso. Quando alguém espantado pergunta: “Por que você fez isso?” ele responde com naturalidade: “Porque eu queria entender”. Ele foi a primeira pessoa que falou chorando sobre mim, e aconteceu numa roda de conversa na escola quando o professor de sociologia pediu que ele falasse sobre alguém especial. O Gui não segurou o choro mesmo conhecendo a pressão vinda de fora sobre todo aquele blá blá blá de homem não chorar.
 
Além disso, toda vez que tenho vontade de chamar alguém de babaca e começar uma discussão eu me lembro da serenidade do Gui que nunca conversava quando estava irritado. A maneira dele  absorver, e deixar as coisas bem, era não falar quando estava chateado. Toda vez que penso que talvez um sacrifício não seja válido por alguém, eu me lembro de quando eu decidi colocar minha mochila nas costas, abandonar nossa estabilidade no apartamento e cair no mundo. Ele apenas me abraçou e disse: “Não quero que vá, mas entendo que queira ir. Estarei sempre aqui”. E ele continua aqui.
 
Muitos anos se passaram, no último fim de semana fui à sua formatura da faculdade, hoje ele é um engenheiro, estudou muito para isso, e eu o acompanho desde a ânsia sobre qual faculdade cursar. Nestes anos de amizade muitas vezes tive vontade de gritar aleatoriamente: “Gui, eu estou muito orgulhosa! Você é meu irmão!”, poucas vezes o fiz, afinal, assim eu seria facilmente retirada da colação de grau. Além disso, eu poderia dizer tantas outras coisas, mas no ultimo final de semana eu não disse nada. Apenas observei seu álbum de formatura sendo construído com fotos dele de bata segurando roupinhas de bebê.
 
Meu melhor amigo será pai em breve. Eu poderia gritar ao mundo tantas coisas, mas apenas segurei com força meu coração que desejava sair pela boca. Sorrimos a noite toda, e fomos embora de chinelos às nove da manhã. Eu poderia dizer tantas coisas, mas apenas roubei um canudo de formatura e contei a ele, e ele respondeu sorrindo que eu continuo sendo a Bel. E ele continua sendo o Gui meu melhor amigo, pai do Théo, o meu sobrinho.

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras