Olhar indiscreto

Por: Angela Gasparetto

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E sentada como uma espectadora usual, eu costumo assistir ao cotidiano de nossas vidas aqui desde sempre.

Fico observando nossa atuação como de personagens fictícios, mas de vida tão pungente e de esperanças tão profundas.
 
Observo com muito cuidado este nosso apartamento de praia de decoração a anos 70.
 
Paredes coloridas de um tom verde apagado, azulejos extravagantes e esquadrias retrô. Costumo olhar para esta nossa vida como um filme, em que como atores baratos, temos sofisticados dramas internos, desde que viemos para cá.
 
Olho para fora da janela, esta agora com cortinas mais modernas e para o quadro que está ali faz anos, assistindo também ao drama de tantos moradores ocasionais deste ambiente.
 
Neste nosso exíguo mundo, fico parada tentando descobrir todas as histórias dos moradores antigos. Abro os armários e descubro objetos de uma obsolescência cativante.
 
Do vitrô antigo, posso divisar os outros moradores do prédio ao lado e algumas vezes atuo como o personagem daquele filme “Uma janela indiscreta”, de Hitchcock.
 
Mas neste meu olhar tem muito de ternura e complacência, qualidades as quais não teria de forma alguma se fosse para morar aqui o ano todo, eu que classifico a privacidade como um fator indispensável para a vida.
 
Esta atmosfera de vida já vivida  lança-me continuadamente como se eu fosse outra pessoa, pois o ambiente deste lugar absorve a mim e aos nossos dramas, fazendo com que nos conectemos a esta energia dos anos 70.
 
Então, sinto sempre que aqui já vivi mil vidas e toda a nossa história de repente tem nuances de outrem.
 
De repente vejo-me com uma garrafa de café e uma jarra que foi certamente de outra moradora. Naquele momento, tenho certeza de que volto no tempo e caminho de penhoar rosa, com celestiais bobes nos cabelos, sandálias com pompons e unhas vermelhas terrivelmente pontiagudas.
 
Em todas as refeições, nos sentamos nesta mesa redonda de madeira e contemplamos novamente o quadro com singelos barcos que navegam em um mar revolto, rabiscado de branco e azul, tendo ao fundo uma altruísta dama antiga, a qual espera o seu velejador desde sempre.
 
E então, lembro-me dos muitos Natais e Anos Novos que passamos aqui neste apartamento, onde rimos, brigamos e fizemos as pazes inúmeras vezes.
 
Do peru que inventamos de assar no Natal passado e que levou quase 12 horas por conta do forno antigo. Do champanhe que tomamos e da dificuldade que tivemos para abri-lo.  
De todas saídas e entradas depois da praia e das surpresas que ainda temos ao abrir alguma gaveta emperrada.
 
Este ambiente que está impregnado com a vida e a energia dos outros moradores, também carrega agora as nossas histórias contemporâneas ou não, mas definitivamente repletas de um saudosismo latente feito à imagem deste quadro sem dono, que está pendurado ali na degastada parede há mais de 30 anos.

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