A mãe da paciência

Por: Maria Luiza Salomão

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Paciência parece um sentimento passivo e não há serventia em se esperar que alguém tenha paciência a pedidos, ou por decreto. 

Aliás, é um verdadeiro contrassenso pedir paciência ao interlocutor...se ele a tem, não precisamos pedir. Se ele não a tem...adianta pedir? 
 
Penso na paciência, qualidade incrível, quando substantivada e não adjetivada, quero dizer, no quanto – do ponto de vista psíquico – precisamos desenvolvê-la no dentro da gente. 
 
Mesmo que um nenê nasça aparentemente tranquilo, durma e coma bem, há sempre os momentos de fúria pulsional, de compulsão, de espavor, como diria Guimarães Rosa, que mostra que nós, humanos, nascemos bastante desamparados e bastante deficientes no quesito capacidade de esperar, capacidade de sentir, capacidade de ficar só (na ausência e na presença do Outro, o estrangeiro). 
 
Uma longa trajetória – repleta de curvas e retrocessos – para aprendermos (se possível) que nada é para ontem, que a única certeza absoluta é a morte (depois do nascimento) e que nem tudo depende da nossa vontade, por mais doida e exigente e desmedida e persistente que ela seja, a dona vontade.  Querer absolutamente não é poder, muito menos garantia de alcançar o que queremos, como dizem os numerosos livros de autoajuda. Querer é apenas querer.  
 
Ainda tem o desejar, que é também intenso, mas nem sempre compreensível ou sensato, ou até mesmo reconhecido como um desejo nosso. Quantas vezes nosso desejo é um bastardo que queremos, genuinamente, deserdar...
 
Pensando e pensando sobre a paciência percebi algo além de alguns requisitos muito conhecidos de todos que se interessam por limites – os mais variados – desde a criação de filhos até a regulagem de uma paixão avassaladora por um amor que queremos conquistar.  É preciso tolerância à frustração, pela negação aos quereres e desejos, mas também de muita força! 
 
Pense no Gandhi, lutando contra os colonizadores ingleses...que força interior para manter a posição, sem recuar, e sem atacar.  Sem fugir e sem revidar. 
 
Quanta força temos que ter para desenvolver a musculatura ...quanta persistência e determinação, quando os músculos flácidos doem, têm câimbras, estiram.  Quanto tempo até que possamos executar um movimento em câmera lenta...um pequeno e simples gesto?  Quem sabe quanto de trabalho muscular a bailarina tem que fazer, horas a fio todos os dias, para poder se manter imóvel em uma posição e de-va-gar-zi-nho passar para outra? 
 
Força, portanto. Determinação. Persistência. E, acima de tudo, a mãe da Paciência é a Fé.  Toda a força, determinação, persistência para que haja ampliação de tolerância à frustração, para acontecer a Entrega.  
 
É no escuro, na incompreensão, na incerteza, na ignorância que mais necessitamos da paciência. E ela se ativa e se fortalece se há Fé, se posso manter a confiança de que do caos surgirá cosmos. Do nada irá surgir algo. 
 
Sozinhos, no escuro, na incompreensão, na incerteza e na ignorância, é a fé que garante a força para a espera, para não naufragar no desencanto que nos invade quando da frustração imediata. 
 
Nesses momentos caóticos que vivemos, precisamos cantar no escuro: “andar com fé, eu vou, que a fé não costuma faiá”.  Ando cantando muito.   

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