Eu sei escrever

Por: Isabel Fogaça

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“Eu não sei escrever” respondeu o aluno do nono ano quando pedi uma redação sobre um tema recentemente discutido em sala de aula. Eu sabia que meu aluno queria apenas relatar uma dificuldade, mas continuei como se tivesse interpretado no sentido literal: “Claro que você sabe! Você sabe isso e muitas outras coisas, e é por isso que está aqui agora”, explanei um sorriso apenas com os lábios, e ele continuou afundando a ponta do lápis no caderno sem conseguir findar seus olhos nos meus, entendi que aquele era um convite para eu sair, e eu apenas obedeci.

Enquanto isso, seus colegas escreviam motivados, estavam dissertando sobre um tema onde não havia muitas dúvidas, eles só precisavam colocar o que sabiam no papel. Às vezes algum dedinho aparecia apontado para o teto da sala, quase sempre perguntando se uma palavra era escrita com x ou ch, tudo muito bem, mas de longe eu percebia que o menino ainda não escrevia.
 
Encostei meu quadril em uma das mesas e por um momento fui tomada por um daqueles devaneios que entram pela boca da gente através de um suspiro profundo. “Eu não sei...” quantas incontáveis vezes dizemos isso para a vida? 
 
“Eu não sei”. Na primeira série, por exemplo, eu tinha apenas cinco anos, enquanto meus coleguinhas tinham sete. Eu tinha tanta vergonha de estar ali que desaprendi a conversar, e às vezes apagava meus erros no caderno com a ponta do lápis molhado porque tinha vergonha de pedir uma borracha emprestada. 
 
“Eu não sei”. Eu não sabia jogar vôlei e fui selecionada para o time da escola; com a primeira bolada acertada com precisão no meio do meu rosto, olhei para o professor e disse com os olhos marejados: “Eu não sei!”. 
 
“Eu não sei”. Eu não sabia o que fazer da vida quando dava uma vontade imensa de chorar no meio da madrugada na solidão, quando eu morava sozinha a mais de doze horas de casa. 
 
Nada de errado em tudo isso, às vezes a gente não sabe mesmo, e precisa de tempo para pensar.
 
O sinal bateu, os alunos saíram correndo como uma manada alvoraçada após ter sido picada por abelhas. Empilhavam suas redações sobre a mesa, enquanto o menino vinha em minha direção em passos lentos e cabeça baixa. Pergunto de modo compreensivo: “Onde está sua redação?”. Ele, então responde: “Eu não sei fazer”. Continuo: “Pode ser que você não consiga agora, mas estou curiosa para ler na próxima aula. Faça em casa!”. Ele não responde e sai correndo para o intervalo.
 
Talvez ele nunca reflita sobre isso, como eu acabei de fazer com os meus “Eu não sei”. E depois de uma aula toda equilibrando o lápis sobre o papel penso que tudo que ele não precisa é de pressão, decido que nunca mais tocarei no assunto. No dia seguinte, uma folha tímida, amassada sobre a minha carteira. A letra demonstrava tensão, o papel sujo evidenciava que o aluno havia escrito e apagado várias vezes, mas estava ali, e ele sabia, ele escreveu.

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