A primeira escritora do mundo

Por: Mario Eugênio Saturno

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A escrita define a História do ser humano, quando os fatos e os envolvidos foram registrados. A escrita evoluiu em vários locais e cada uma não sofreu influência das outras, ao menos no início. Possivelmente, as escritas mais antigas são a escrita cuneiforme e os hieróglifos, criados há cerca de 5500 anos, a cuneiforme pelos sumérios, na Mesopotâmia (atual Iraque), e os hieróglifos no Antigo Egito. 

De lá para cá, a humanidade vem descobrindo escritos antigos, traduzindo e entendendo os povos e suas culturas. E dando à palavra História (pesquisar, em grego) um novo significado. 
 
E algumas surpresas, boas, como o primeiro escritor identificado. Escritor não, escritora! Os primeiros textos assinados, ou seja, que conhecemos a autoria, são de uma sumeriana, cujo nome era Enheduanna, uma princesa e sacerdotisa da cidade-estado de Ur, a mesma cidade de Abraão, que foi contemporâneo dela. A escrita era o cuneiforme, na língua acadiana. 
 
Enheduanna era filha do rei Sargon de Acádia, e alta sacerdotisa do deus da lua, Nanna. Ela foi a primeira mulher conhecida a ter o título de EN, que denotava grande importância política. Sua mãe provavelmente era a rainha Tashlultum. 
 
Ela continuou no cargo durante o reinado de Rimush, seu irmão, apesar de ser envolvida em alguma turbulência política, ser expulsa e, em seguida, reintegrada como alta sacerdotisa, conforme ela mesma relatou detalhadamente em seu hino “A exaltação de Inanna”. Isso também está relacionado ao hino “A Maldição de Acádia”. 
 
Duas tabuinhas cuneiformes de Enheduanna foram escavadas no Cemitério Real em Ur e datam do período Sargônico. Também um disco de alabastro com seu nome e imagem dela foi escavado no Giparu em Ur, que era a residência principal de Enheduanna, nos níveis de Isin-Larsa (datado de 2000-1800 AC) e estava ao lado de uma estátua da sacerdotisa Enannatumma. Muitas cópias do trabalho de Enheduanna foram feitas e mantidas em Nippur, Ur e Lagash ao lado de inscrições reais, o que indica que eles eram de alto valor, talvez iguais às inscrições dos reis. 
 
Enheduanna compôs 42 hinos dirigidos a templos da Suméria e Acádia, incluindo Eridu, Sippar e Esnunna. Os textos dela foram reconstruídos a partir de 37 tabuinhas de cerâmica, a maioria dos quais datam dos períodos Ur III e Babilônia Antiga. Esta coleção é conhecida geralmente como “Os Hinos Sumérios do Templo”. E sobre os hinos, a própria Enheduanna afirma: “meu rei, algo foi criado que ninguém criou antes”. A cópia dos hinos indica que estavam em uso muito tempo depois da morte de Enheduanna e foram mantidos em alta estima. 
 
A autoria de Enheduanna é muito instrutiva sobre a alfabetização e posição de importância da mulher na antiga Mesopotâmia. Além de Enheduanna, esposas de reis são conhecidas por terem encomendado ou até composto poesia. E a própria deusa Nindaba teria atuado como escriba. As informações que temos das deusas mesopotâmicas revelam a percepção cultural das mulheres e seu papel importante naquela sociedade. 

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