Caminhos bem pensados

Por: Maria Rita Liporoni Toledo

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Raimundo nasceu no nordeste, na capital onde os verdes mares brilhavam como líquida esmeralda, aos raios do sol nascente, mas nem esta paisagem linda, nem as alvas praias ensombradas de coqueiros o atraiam. Passou parte de sua vida entre livros, lendo, pesquisando e, portanto, seus interesses não se assemelhavam aos dos colegas de sua idade. Determinado, só priorizava os seus objetivos. Mesmo assim, teve uma vida social tranquila, conseguia se integrar aos demais, fala mansa e sorriso tímido. O pai trabalhava longe, era sua mãe que o cobria de cuidados e afetos administrando este seu jeito peculiar com maestria. Tentava, assim, fortalecer os vínculos entre eles, pois os sentia fracos e distantes.

Quando criança comprovou que o menino é pai do homem; gostava de pular varetas  sozinho, e impunha a si os próprios desafios, ele marcava as distâncias que deveria alcançar. Na sua vida profissional e pessoal, sempre, foi assim. Os sistemas orgânicos do corpo humano e suas patologias o instigavam e, quando quis cursar medicina no Sudeste, foi impedido pela mãe que sabia que se ele fosse não voltaria. Estudou os seis anos, na própria cidade, e tão logo vestiu a beca preta com o cinturão verde rutilante, partiu para o Rio de Janeiro, onde faria a Residência por três anos. Logo, este nordestino arretado impôs –se por seus conhecimentos e sua disciplina.Interessou-se por Copacabana, bem diferente de suas praias selvagens e naturais e uma carioca dengosa e brejeira o arrastou para um banho de mar. Ela, chorosa, o queria fixado no Rio e a mãe insistia para ele voltar, transitando entre o amor e outros sentimentos menos nobres como raiva, ciúme, decepção diante da autossuficiência dele em relação a ela, ausência de afeto e de reciprocidade. Não se sentia segura, tanto é que Raimundo, indiferente, mudou-se para São Paulo, pretendia dar sequência aos seus estudos como professor e pesquisador. Anos e anos plugado ao computador, analisando em laboratórios e examinando bibliotecas! Era o seu pendor! Não se casou, não constituiu família, nunca voltou ao Brasil. Seu próximo pulo, no jogo de varetas da vida, foi para Harvard Medical School, em Boston, nos EUA.

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