Juana Inés

Por: Sônia Machiavelli

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Vale muito a pena assistir à série  Juana Inés de la Cruz, disponibilizada recentemente pela Netflix a seus assinantes. Tanto pela forma, como pelo fundo, é obra de arte que desloca o olhar do espectador para período histórico de  intolerância , crueldade, sofrimento. Mas, embora pareça contraditório, também aquele em que a língua espanhola produziu o seu melhor nas artes, especialmente na literatura, ensejando  a criação do aposto “El siglo de oro”.  A ação se passa entre 1664 e 1694.

 Voltemos um pouco no tempo. O  século XVI foi marcado  pela crise dos valores renascentistas, que gerou nova visão de mundo. No campo religioso, a Reforma (1517) contestou as práticas da Igreja Católica e propôs nova relação entre Deus e os homens. Uma das bandeiras desse movimento foi a tradução da Bíblia para idiomas nacionais, abrindo caminho a novas interpretações das Escrituras. Dividida e enfraquecida, a Igreja  teve que reagir rapidamente. Em 1563 foi deflagrada  a Contra- Reforma,  que tinha por objetivo combater a expansão do protestantismo e recuperar os domínios perdidos. Testemunha do horror, o pintor François Dubois registrará em tela a fatídica Noite de São Bartolomeu, em 1572, quando milhares de protestantes foram mortos em Paris a mando dos reis franceses.  
 
A cultura ocidental do século XVII refletirá  portanto a crise religiosa do século anterior. O europeu se vê dividido entre duas forças opostas: o antropocentrismo e o teocentrismo. Na alma do homem ocidental desta época trava-se um embate de forças que buscam conciliar  desejos antagônicos: os apelos da carne e a salvação da alma.  A estética à qual chamarão depois Barroca  refletirá  a tensão  entre fé e razão, espiritualismo e materialismo. Ela plasmará novos estilos de pintura, escultura, arquitetura, música e... literatura. 
 
Cada esfera artística fixará com signos peculiares  sua maneira de expressar a dualidade do homem barroco e sua tentativa de fundir valores contraditórios. Na pintura, é possível identificar o contraste entre claro e escuro, como em Caravaggio. Na escultura, as dobras agudas e roupas esvoaçantes das figuras retorcidas de Bernini. Na arquitetura, o excesso de ornamentação na basílica de Santiago de Compostela.  A polifonia e o contraponto marcam a música de Vivaldi. Na literatura, o uso de antíteses, paradoxos e inversões traduz no verbo a ânsia por espiritualizar a carne e carnalizar o espírito.  Foi um período de dificuldades  onde as artes floresceram, pois é certo que artistas produzem mais e melhor em situações adversas. 
 
Esta introdução tem a intenção de contextualizar a série da qual falamos ao abrir estes comentários. O enredo segue de perto a biografia de  Juana Inés de la Cruz, monja, jovem e linda, cujos versos profanos  hoje se equiparam aos do maior representante do Barroco em língua espanhola, Góngora. Sua obra mereceu de Octavio Paz, Nobel de Literatura 1990, e de Mário Benedetti, premiado romancista uruguaio, vastos ensaios. 
 
Filha natural de pai basco e da  mexicana Isabel Ramírez, Juana de Asbaje y Ramírez de Santillana nasceu em 1651, numa fazenda em  Nepantla. Precoce,  lia fluentemente aos três anos e aos seis pediu a sua mãe que a vestisse  como menino, “para ir à Universidade.” Aos oito, em casa de tios maternos, aprendeu latim em vinte lições. A inteligência, o talento, os conhecimentos, a sensibilidade literária e a beleza física lhe abriram as portas para, com apenas treze anos, entrar na vida palaciana, convidada pelo Conde de Mancera, vice-rei da Nova Espanha, como era chamado o México colonial. Embora adolescente,  tornou-se amiga e confidente da vice-rainha Leonor. Em poucos meses, sua figura se impôs na Corte.  Aos 16, tal era o seu saber que quarenta professores da Universidade, entre teólogos, filósofos, matemáticos e humanistas, puseram-na à prova, inquirindo-a sobre vários ramos do conhecimento humano. Suas respostas levaram o vice-rei a compará-la a “um galeão real defendendo-se dos ataques de uns quantos barquinhos.”
 
No auge desse reconhecimento, tomou a decisão de encerrar-se num convento. Apesar de sua rejeição ao estado religioso, repugnava-lhe mais ainda o casamento.  Como não era permitida a entrada de mulheres na Universidade, sua ânsia de saber a levava para o claustro. Mas sua permanência entre as Carmelitas Descalças foi breve. Os rigores das regras  que não lhe permitiam ler senão livros religiosos, obrigaram-na a se retirar ao fim de três meses. Um ano e meio depois, com dote pago por um padrinho e os custos da cerimônia por seu confessor, ingressou  no convento da Ordem de São Jerônimo, onde poderia se dedicar (com ressalvas) ao estudo e à poesia. Levou imensa bagagem de livros e  instrumentos musicais ao ingressar na ordem. Durante os 26 anos em que lá viveu, sua cela transformou-se numa referência, e foi visitada por  poetas e  prosadores, autoridades da Igreja e da Corte. Dali  ela se correspondeu com  intelectuais espanhóis, italianos  e portugueses, que lhe abriram as portas da imortalidade literária. Também trocou cartas e afetos com sua amante, outra vice-rainha, que se retirara para Madri e lhe publicou os poemas na Espanha, granjeando-lhe fama e respeito além fronteiras mexicanas. Morreu aos 43 anos, afetada por um vírus que dizimou a população do convento. Escreveu até o fim de seus dias.
 
 A série da Netflix nos mostra tudo isso, mas revela sobretudo o grande sofrimento físico, moral e psicológico imposto a Inés, a quem as qualidades excepcionais de um espírito absolutamente livre atraíram  ódios implacáveis. 

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