Honestidade

Por: Roberto de Paula Barbosa

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Como é difícil tentar ser honesto ou, pelo menos, fazer certinhas as coisas do cotidiano! Acho que é reflexo das atitudes de nossos administradores que já se acostumaram a viver na regalia e impunidade. 

Há alguns anos, bota mais de 20 anos nisso, num arroubo de macheza, comprei uma espingarda para manter no sítio que tínhamos nas Furnas de Cristais Paulista, pensando que, com essa arma, estaria protegido de animais selvagens e humanos iguais. Devo esclarecer que a arma foi comprada legalmente e registrada. Mais recentemente, mas continua com muitos anos antes, vendemos o sítio e trouxemos para a cidade diversos trastes, destes que só se juntam em chácaras e sítios, e dentre eles a famigerada espingarda, cujo registro tem prazo de validade de apenas três anos. Lá pelos idos de 2013 venceu-se mais uma vez e, com muita paciência e tempo, apresentando atestados de antecedentes criminais e outros, de tudo quanto é tipo e de quantas repartições, cartórios, justiças e tribunais, nos âmbitos federal, estadual e municipal; depois de passar por uma avaliação de psicólogos credenciados, fazer um curso rápido e decorar uma cartilha de armamento e tiro, e mesmo sabendo da minha índole violenta e vingativa, deram-me a renovação do registro, podendo, assim, manter a arma dentro de casa, sem poder usá-la fora de meu domicílio. 
 
Agora, há alguns dias, vi que o registro estava vencido e fui verificar como proceder para a sua renovação. Não é que eu teria que passar por tudo aquilo novamente! Tirar um monte de certidões, pagar taxa para a Polícia Federal, que eu me esqueci de mencionar acima, além dos custos com o psicólogo e o treinamento militar. Meus anos já não estão me permitindo essas veleidades, pois, além de minha espingarda já não disparar com frequência, não tenho animais selvagens no meu encalço, apenas dos humanos iguais, que é o risco de todos nós.
 
Informei-me se poderia vender a arma, mas eu teria que pedir autorização para a Polícia Federal e o comprador passar por toda a parafernália acima. Recebi dois conselhos ótimos, mas que eu não faço por princípios; primeiro, fazer um curso intensivo com o PCC ou o PV - aquele com o qual eu me simpatizar melhor – tornar-me um líder dentro da organização; aí sim, eu teria os melhores armamentos, baratos, sem impostos, taxas ou certidões e, talvez, não fosse incomodado pelas autoridades, desde que seguisse os normativos que regem a pacífica convivência. Segundo, vender a arma para um traficante numa boca de fumo, sem recibo, sem identificação, e alegar que ela foi roubada, esquecendo que a arma tem número registrado.
 
Agora tenho uma arma, mas estou num mato sem cachorro, embora não seja caçador. A única alternativa é entregá-la ao governo que, mediante um pagamento simbólico, dará o destino que melhor lhe convier. 
 
E, para finalizar, lembro às mentes turvas e maliciosas que garrucha velha, de vez em quando, também dispara.

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