“Um lenço, um folheto e a roupa do corpo”

Por: Sônia Machiavelli

345092

Aristóteles, em sua  Poética, tratado onde refletiu sobre a essência da literatura e a diversidade dos gêneros conhecidos naquele momento da História, diz a certa  altura que “A peripécia é uma mudança para a direção contrária dos eventos (...)em conformidade com a probabilidade ou com a necessidade (…)”  Ele falava ( e continua falando) aos autores e  se referia a um ponto crucial   de qualquer narrativa, criando  um conceito tão importante que permanece até hoje insubstituível. Mudou apenas a nomenclatura: hoje chamamos  à “peripécia” de “plot”. Em termos mais ampliados, trata-se do nervo do enredo, é a alma da trama, é o nó da intriga, é a mola propulsora que movimenta os fatos, transformando a ação e os personagens. Sem o plot, a história não caminha, não deslancha, não responde à pergunta que todo ficcionista  coloca para o leitor de forma clara ou sub-reptícia. Joseph Campbell, o estudioso dos mitos, atualizou o pensamento de Aristóteles e desvelou num ensaio célebre- A jornada do herói, o percurso que nas histórias clássicas cumpre o homem comum, transformando-se  ao longo das muitas provações surgidas em seu caminho.

No livro Um lenço, um folheto e a roupa do corpo, que marca a estreia do jornalista Claudio Amaral na ficção, o plot é anunciado várias vezes, desde o primeiro capítulo chamado “No plantão da delegacia”. Mas  acaba restrito apenas à pergunta que o delegado faz diversas vezes  ao protagonista, evidente alterego do autor, a começar do nome- Claude Amarante. Em pelo menos uma dezena de vezes, ao longo das 133 páginas, o delegado Cristovam Buarque de Hollanda pergunta: “- O senhor confirma o que está dizendo o  seu filho, senhor Amarante? O senhor confirma ter dito ao seu filho que vai passar com o carro sobre ele?” Em uma das vezes, Amarante confirma e cai numa crise de choro. 
 
Esta questão, a princípio instigante, que o ficcionista coloca para o leitor, desencadeia no espírito  interrogações básicas – por que? quando? como? – que não são respondidas. Até o final da história não sabemos o que ocasionou a grave divergência entre pai e filho, a ponto de ser levada a uma delegacia. Isso  frustra quem segue pelas páginas  tentando encontrar respostas. Em lugar delas, o que se cria é um duplo movimento. De um lado, Claude Amarante divaga mentalmente, e volta ao seu passado remoto, relembrando episódios importantes à sua vida profissional e pessoal, resgatados com minúcias. De outro, divaga também o delegado, Don Juan de vida amorosa dividida entre  esposa compreensiva e amante fogosa. Envolvido com esta, a quem deseja encontrar, faz o possível para que o interrogatório termine logo. Entre a reiterada pergunta-base e o anseio para que ela construa afinal o plot, sempre postergado, vamos conhecendo particularidades das vidas do delegado, do jornalista aposentado, de pessoas a eles relacionadas.
 
Quanto ao título da obra, Um lenço, um folheto e a roupa do corpo, só no terço final da obra se explicita, quando Amarante sai de casa dizendo que vai viver 40 dias como um andarilho nas ruas de São Paulo, para refletir sobre sua vida. Neste momento  temos a esperança de que o conflito entre pai e filho será afinal revelado. Isso não acontece. É como se uma nova história começasse a ser contada. Os perfis da mulher e dos filhos são mais esboçados, a acentuada religiosidade da família é mostrada em detalhes, a ação ganha um vigor até então latente, os diálogos movimentam melhor a trama, duas novas personagens aparecem- a namorada do filho (que denunciou o pai) e sua filhinha, neta do protagonista. Mas até o happy end previsível, a pergunta incisiva, tantas vezes repetida -  por que o pai queria passar o carro sobre o corpo do filho?_ não é respondida. Talvez a intenção tenha sido deixar em aberto a resposta, para que o leitor imagine. É uma possibilidade que ouso registrar.  
 
Pontos altos da história, narrada em terceira pessoa, são a reconstituição de alguns bairros de São Paulo, mostrados em detalhes urbanísticos e até arquitetônicos, tanto no presente como no passado; e o resgate do noticiário jornalístico das últimas décadas,  com destaque para grandes tragédias que até hoje mobilizam o imaginário popular. Os incêndios do Andraus e do Joelma são duas delas. Trazer para as páginas do relato muitas informações de testemunha ocular  transforma em alguns momentos o livro em quase-documentário que mescla personagens com profissionais reconhecidos, como se lê na página 51: “ Em 18 meses ele (Claude Amarante) pulou para a gerência geral da empresa do amigo Meninão, o saudoso Álvaro Luiz Assumpção.” Meninão foi célebre nome do jornalismo paulistano. Esse artifício  de levar às páginas  pessoas verdadeiras em convivência com criações literárias, evidencia importante trabalho de pesquisa do autor. Também há que se registrar a linguagem correta, sem nenhuma agressão ao idioma, o que valoriza a obra.  
 
No prefácio, Gabriel Emídio Silva, jornalista e ghost-writer, avalia: “O primeiro livro impresso do jornalista Cláudio Amaral surpreende pela recriação do prosaico. Um lenço, um folheto e a roupa do corpo funde acontecimentos reais a procedimentos ficcionais. E deixa espaço para o leitor se posicionar como parceiro do autor, ou do narrador. Orienta cada capítulo por meio de highlights que, de certo modo, suscitam no  leitor aquilo que ele vai ler. São teasers- e não sinopses.”
Na contracapa, Carlos Conde, editor de Claudio Amarante n’O Estado de S. Paulo, no Correio Braziliense e na Imprensa Oficial  Paulista, ressalta as qualidades do jornalista: “Passou por todas as posições possíveis– repórter, redator, editor, editor executivo, editor-chefe, diretor de Redação. Em todas conseguiu evitar alguma das tentações mais correntes da profissão: a vaidade de pavão e a busca de ascensão a qualquer preço. Manteve, constantemente, um padrão alto de independência”.  E conclui: “A maioria dos jornalistas sonha em utilizar seus conhecimentos dos segredos da linguagem para escrever livros. Claudio Amaral está realizando esse sonho.”
 
Claudio  Amaral foi repórter e editor no Comércio da Franca no início dos anos 2000, depois de trabalhar em O Estado de São Paulo, Folha de São Paulo, Jornal do Brasil e outros jornais. Também integram seu currículo passagens pelo Correio Brasilense, A Tribuna de Santos, O Estado do Mato Grosso, a TV Morena. Do Comércio lhe envio pois os cumprimentos pelo lançamento do livro,  desejando-lhe que depois deste venha outro. Iniciar-se na ficção com um romance é ato corajoso, pois este é um gênero que pede muita entrega ao autor. De minha parte, acredito que o delegado de nome curioso bem poderia ressurgir numa próxima história, quem sabe um conto, pois sua composição mais vigorosa garante sobrevida. 

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras