Borrões

Por: Luiz Cruz de Oliveira

345093

O tio João tocava violão, o pai tocava pandeiro. Tocar é força de expressão. Os coevos do pai e do tio garantem que não havia melodia, só um barulhão infernal. Para os casais, todavia, os ruídos eram acordes, o baile estava sempre animado. E, enquanto a poeira subia até a lona da tolda, a alegria pisava o escuro do sábado, pisava o vestido dourado da madrugada do domingo.

Eu insistia com o pai, queria tocar cavaquinho. Não havia cavaquinho, explicava. Eu queria cantar com eles, sabia pedaços da Mula Preta. a resposta do pai era invariável.
 
— Sua voz não presta.
 
Amuado, escondia do serviço, ficava perto do monjolo, repetindo estrofes de canções, escutando seu tum... tum..., achando que venceria a resistência do homem.
 
— Sua voz não presta.
 
O tempo mostrou que o pai era sábio, passou. 
 
Ficaram, porém, o gosto por decorar textos alheios, a peia que me prende às raízes de uma cultura que insiste em mim, fazendo-me, não raro, alvo de chacotas.
 
Ficou mais.
 
Sempre que estou só, ouço o tum... tum.., a incontestável música clássica do monjolo e da água e me vem então uma vontade desesperadora de cantar. 
 
Não canto.
 
— Sua voz não presta.
 
Sujo o papel com pedaços da meninice.

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras