Infância

Por: Lúcia Helena Maniglia Brigagão

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Crianças ainda precisam de uma infância com sujeira, lama, poças, árvores, gravetos e girinos”.

Quem mora hoje na rua Saldanha Marinho, em Franca, sequer imagina como era morar ali na década de 50. A rua passa em frente à Igreja Matriz, que por muitos anos foi usada como referência para determinar o centro da cidade. Como em todas as pequenas cidades da época, em frente à praça principal também ficavam o coreto – a maioria das cidades tinha um, as Casas Pernambucanas e os pontos de taxis, naquela época chamados de “carros de praça”, talvez por causa da localização. A rua continuava nas duas direções, a partir da Matriz. Na extrema direita, terminava após cinco ou seis quarteirões, no Ribeirão Cubatão. À esquerda, quatro quarteirões depois daquele do da igreja, a rua terminava num matagal, que por sua vez era limitado pelo Córrego dos Bagres. Os dois extremos abrigavam duas turmas de moleques. De um lado, a denominada Turma do Cubatão; do outro, a Turma dos Bagres. Claro, eram rivais. Detestavam-se mutuamente, sem qualquer razão para tanto. Todavia igualavam-se nas farras. Tinha futebol no campinho, cada qual no seu extremo, mas nunca se soube de um jogo entre as duas equipes. Tinha pique-nique às margens dos respectivos córregos, por aquela ocasião translúcidos, transparentes e despoluídos. Roubava-se jabuticaba, manga, goiaba dos sítios das redondezas, que sobejavam e os donos nem tinham como colher. Soltava-se papagaio de confecção doméstica. Sem cerol. Disputava-se jogo de faca e de bolinha de gude. Um dia apareceu o futebol de botão. Trocava-se figurinha de álbuns – uma difícil por trinta fáceis, e gibis do capitão Marvel e Flash Gordon. A rua fazia uma curva e o centro dessa curva, onde estava a igreja, era o ponto mais alto. A pavimentação de paralelepídedos terminava logo depois do centro, em ambas as pontas. Era uma festa quando chovia, a enxurrada vinha ladeira abaixo trazendo lama, papel, latinhas. Um dia o asfalto chegou e começou a era dos carrinhos de rolemã, cujos campeonatos eram disputados aos gritos, berros, torcidas, joelhos e cotovelos ralados. Os banhos, que marcavam o fim das brincadeiras de rua do dia, aconteciam no final da tarde e tinham duas etapas. A primeira começava do lado de fora, no tanque de casa, com sabão de cinzas, bucha e água fria esguichada com mangueira de jardim. Continuava dentro de casa com água quente, bucha e sabonete Lifebuoy. Nossa infância tinha sujeira, lama, poças, árvores, gravetos e girinos. Não existia, ainda, máquinas e tecnologia avançada, mas foi inesquecível. E muito saudável.  

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