A HISTÓRIA DA VACA

Por: Angela Gasparetto

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Quando mudamos para a cidade, pois antes morávamos na fazenda, minha mãe teve que trabalhar fora e ficávamos em casa apenas eu e minhas duas irmãs mais velhas.

Eu estava com cinco anos, minha irmã do meio com sete e a que cuidava de nós com onze. Veja bem a trinca de crianças, cada uma mais nova do que a outra...

A de onze anos era a responsável por todas nós e a de sete tinha um gênio terrível, o chamado “gênio do cão”, ou seja, era chorona, birrenta e mimada.

Já eu, era a tontinha da família, tudo que me mandavam fazer eu fazia sem reclamar, porque se já estava difícil sem reclamar, imagina fazendo birra como a minha irmã de sete fazia...

Esta minha irmã estudava em uma escola de freiras, todas muito rígidas. Naquele tempo, eles emprestavam a cartilha para as crianças mais pobres. Quando terminava o ano escolar, se devolvia a mesma.

Mas, caso houvesse algum dano na cartilha, os pais tinham que ressarcir o colégio.

Assim, tínhamos em mente a responsabilidade exacerbada, casada com a pobreza extrema e muito da ingenuidade latente quando se é lançado em um mundo de novidades, ao qual não fomos familiarizados.

Decretado: Não se podia rasurar, dobrar ou amassar a cartilha! Ponto indiscutível.

Um dia, minha irmã de onze anos estava ajudando a de sete a estudar, fazer os exercícios, algo assim.

De repente, do nada, o mundo caiu! Eu estava como sempre no mundo da lua, sonhando com o Raio de Sol, meu amigo imaginário que atravessava as telhas da casa nova, e ouvi um berro que nunca mais vou esquecer em toda a minha pregressa e futura vida.

Ouvi o berro e uma palavra feito quando o locutor de rádio anuncia um gol: “MINHA VACAAAAAAAAAAAAAAAAA!”.

O berro trespassou a casa nova e atingiu os vizinhos das redondezas. Tenho certeza de que a nossa vizinha D. Aparecida pensou que alguém havia morrido no bairro ou sido atropelado por um caminhão tanque, se houvessem caminhões tanques nos anos 60, creio que não havia...

Pois bem, saí do meu transe costumeiro e entrei na cozinha para ver o que acontecia.

Minha irmã de sete estava sentada no chão da cozinha e berrava enlouquecida, arranhando o rosto, puxando os cabelos e esfregando as pernas, ou seja, atitudes típicas de uma birra, só que das boas, certo?

Meus primos que também eventualmente nos visitavam, estavam com cara de assustados e minha irmã de onze estava extática, sem ação. A de sete continuava berrando: “Minha vacaaaa! Você borrou a vacaaaaa! Você sujou a cartilhaaaaaa! A minha vacaaaaa!” e chorava compulsivamente, encompridando todas as vogais da vaca neste choro. A vaca no caso era a da lição do “V”.

Foi uma tragédia. Pronto. A “vaca foi “pro” brejo”, ou melhor, foi borrada, a cartilha estragada, a confusão formada e as palmadas à noite seriam dadas.

Resumindo, minha irmã de sete chorou rios de lágrimas para ser mais clichê, apesar da de onze tentar consertar o erro, que, segundo ela, foi quando tentou soltar a tinta da caneta, a mesma se espalhou desastradamente em cima da cartilha.

Quando tudo passou, a vaca foi limpa da melhor maneira possível, a cartilha e minha irmã postas ao sol lado a lado, uma para secar a tinta e outra para secar as lágrimas.

À noite, sempre havia a noite, quando minha mãe chegava e, dependendo das nossas atitudes, umas palmadas seriam garantidas, costume usual na formação de algumas famílias daquela década. Enfim, a noite chegou, tudo foi conversado com minha mãe e, claro, ela entendeu o ocorrido e ninguém foi punido.

No dia seguinte minha irmã foi à escola normalmente e quando foi explicar à freira o ocorrido, tremia toda, estava vermelha e sem graça; já esperando uma bronca ou castigo.

Depois que minha irmã terminou de explicar o ocorrido, a freira olhou bem para a cartilha, olhou séria para minha irmã e disse assim: “Pelo menos agora temos uma vaca malhada.”

Minha irmã a principio não entendeu a brincadeira, pois estava muito nervosa. Mas entendeu quando viu a freira sorrindo e dizendo: “Está tudo certo, querida. Mas tenha mais cuidado no futuro”.

Claro que no final do ano minha mãe teve que pagar a cartilha. Mas nada, nada pagou e apagou aquela “tragédia” que marcou a infância de todas nós, a vaca borrada, o desespero da minha irmã de sete, a agonia da de onze e a minha cara de pateta diante do ocorrido.

Esta história da vaca acompanhou nossa vida e hoje adultas quando nos lembramos da mesma, rimos todos, já com minha irmã que tinha sete anos ainda tentando explicar o seu próprio pânico e a de onze se desculpando pelo desastre.

Resumindo, aprendemos com isto que responsabilidade demais é algo que se te incute muito cedo, às vezes pesa tanto que este peso nos acompanha para o resto das nossas vidas.

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