campeão

Por: Luiz Cruz de Oliveira

Contou as notas várias vezes, contou as moedas, fez contas no papel. O resultado confirmou o mesmo: o dinheiro era insuficiente para a compra de dois pares de chuteiras.

— Toma, compra a sua.

— Mas...

— No Cascudo eu jogo de botina mesmo.

O tempo acelera a dinâmica da língua, deixa sem referente algumas expressões. O Cascudo desapareceu. Significava o segundo time, os jogadores que faziam a preliminar para os ‘cobras’, os jogadores do time principal.

De chuteira nova, provocando inveja nos companheiros, lá foi o filho para a disputa dos jogos, atuando de lateral direito no Caramuru, equipe dirigida pelo Ciede de Freitas que, além de centro-avante, era ainda o artilheiro do time.

Ao final de alguns meses, o Caramuru se sagrou campeão do primeiro campeonato de futebol varzeano de Franca. O ano era o de 1959.

O pai comprou fotografia do time – os jogadores segurando a faixa enorme, com letras em vermelho – fixando o feito heróico. Mandou ampliar a fotografia, botar no quadro, pendurou na parede.

Hoje a foto continua na parede, um pouco amarelecida, apesar da proteção do vidro. Olho os rostos sorridentes, minha cara juvenil, os cabelos negros de quem tinha dezesseis anos.

Procuro entre tantos o semblante do senhor Vadico... e não encontro o de meu pai.

Penso que aquela foi a maior conquista de minha vida, mas que, realmente, não fiz jus ao troféu.

O campeão foi meu pai.


 

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