O vestido azul

Por: Angela Gasparetto

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 Acordei no escuro, havia a um silêncio de mosquitos voando.

Empurrei as cobertas, fazia calor.

A sensação era a de sempre, ou seja, fui trapaceada e dormi.

Todo mundo ficou sossegado durante o meu sono incauto...

Ouvi vozes ao longe, mulheres rindo, crianças.

Muito bonito! Todos se divertiam às minhas custas... No mínimo havia bolos e leite.

E eu aqui, dormindo para sossegar os adultos.

Levantei pronta e com a carranca feita.

Quando cheguei à varanda, todos sorriram para mim e no meio da confusão havia um vestido azul todo fanado... Meu vestido nas mãos daquela mulher, nossa vizinha.

Toda dentes...

E ela sorria segurando as dobras do meu encantamento...

Minha mãe logo avisou; iria doar o vestido, pois não me servia mais e eu já havia usado muito. Seria muito útil para uma das filhas daquela senhora...

Meu coração parou e pensei: Como ousam doar o meu lindo vestido?

Disse que não e abri o berreiro.

A mulher olhou-me e sempre sorrindo, e pensando com certeza, “Isto é coisa de criança” e toda dentes dizia: “Mas como? Então não quer doar-me o vestido? Por quê? Se não quiser, não levo...” Mas já levando...

E eu firme. A mulher sem graça, dentes grandes para mim sorrindo e o vestido na mão.

Foi uma guerra surda, minha carranca e os dentes da mulher.

No fim, minha mãe firme, “leve sim, isto é manha, ela não usa mais!” – disse com a rigidez de sempre, a qual já me rendeu anos de análise.

Minha dor cresceu e toda a raiva que pude extravasei no olhar que dei à mulher-dentes.

Meu choro copioso ficou trancado dentro de mim, tamanha era a injustiça que senti nos meus pequenos quatro anos. Conheci naquela hora, a impotência da infância, a crueldade sem querer dos que nos amam e acima de tudo, a perda irreparável.

Hoje anos depois, tenho tantos vestidos mais ou menos bonitos, dos quais gosto muito, mas não tanto como aquele que vi nas mãos da “mulher- dentes”. E não sei por qual razão, nunca nego o empréstimo de um deles, por mais bonito e novo que seja...

Creio que aprendi que o respeito pela vontade do outro é a maior moeda de troca que pode existir.

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