Anésio Foroni- uma biografia

Por: Sônia Machiavelli

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“Há criaturas que não morrem. Há gestos que não se apagam. Nunca”. Palavras do escritor  Luiz Cruz de Oliveira no prefácio de “Meu pai, o famacêutico Anésio Foroni”,  lançado no dia 2 de fevereiro na cidade. Trata-se de uma biografia, gênero que  fascina  porque poucas pessoas conseguem  se  manter  indiferentes às experiências alheias. 

E por que se biografa alguém? Entre  incontáveis  motivos, para elogiar, criticar, enaltecer, entender, registrar, desvelar, homenagear. No caso,  acredito que  o livro de Moralina Foroni Casas, escrito em colaboração com a historiadora Lucileida Mara de Castro e professora Regina Helena Bastianini, responde aos propósitos explicitados pelos três últimos verbos. Ao  organizar memórias, ouvir depoimentos,  resgatar papéis, buscar fotos denotativas de tempos e afetos,  a equipe responsável  produziu obra de excelência em seu gênero. Conta fatos reais, ilumina a personalidade do biografado, celebra  um francano que marcou presença na história da cidade. E permite aos leitores entenderem  melhor o tempo em que ele viveu e o que o tornou distinto no seu meio. 
 
O relato começa bem antes do nascimento de Anésio Foroni, em 1924. “As raízes”  traça a árvore genealógica  onde se entrelaçam os Foroni e os Betarello, imigrantes chegados ao Brasil no final do século XlX.  Diante de importante documentação, somos informados sobre o processo de chegada dos italianos ao Brasil, e a Franca, cidade onde se estabeleceram, se casaram, tiveram  filhos que  geraram outros e foram constituindo esta fronde que é uma família. A primeira parte da biografia chega à década de 1930 nos oferecendo um painel da luta  renhida dos imigrantes na nova terra que transformariam em sua para sempre, através de muito trabalho, sacrifício, paciência e empenho. 
 
A segunda parte  (“Anésio, ele mesmo”) abre-se com explicação da narradora sobre  o nome do biografado, escolha que revela  a admiração  que os feitos da primeira aviadora brasileira, Anésia Pinheiro Machado, causavam ao pai Giuseppe.  Pelas cinquenta e sete páginas seguintes, o leitor entra em contato com o indivíduo e suas circunstâncias. O menino que desde muito cedo conciliava brincadeiras e trabalho nos fundos da serraria do pai. O adolescente que depois das aulas trabalharia  com outro imigrante cuja vida mereceria também uma biografia- o armênio Nazareth Baidarian.  O jovem que sente palpitar o coração pela jovem Terezinha Diniz, a quem se une depois de ter construído sua  casa na esquina das ruas Mário Mazzini e Voluntários da Franca. Ao lado, o prédio  onde funcionaria a Farmácia Santa Terezinha, tornada famosa nos anos seguintes. Anésio abriu as portas ao público em 1954 e por ali  passaram  gerações  cativadas pela competência e lhaneza do farmacêutico provisionado e legalmente autorizado a exercer a profissão. Durante os dez anos anteriores  ele havia trabalhado com o irmão Leonildo na também  conhecida  Farmácia São Sebastião. O texto   “A trajetória de Anésio no Mundo Farmacêutico”,  pequeno  ensaio sobre a precariedade do sistema de saúde no Brasil à época, torna  evidente que para  a  maioria da população “o farmacêutico tinha uma importância tal, que talvez supere a que, na atualidade, se atribui ao médico. Muitas vezes era a única alternativa acessível em socorro da vida.” Fechando este bloco, o  capítulo “O que define a personalidade de um homem?” sintetiza  o perfil do biografado, que além de ser pessoa que chamava a atenção para seus atributos físicos, mostrava-se   principalmente um ser humano “protetor, zeloso de sua família, gentil, equilibrado e, sobretudo, um trabalhador obstinado em executar o seu ofício de maneira perfeccionista e eficiente”. 
 
Depoimentos de  familiares, cenas de festas natalinas, a reconhecida capacidade de sonhar, a sensibilidade aliada à firmeza,  o forte tom lúdico que permeava o relacionamento com os netos e outras crianças repletam de  lembranças carinhosas, saudosas  e  agradecidas as 42 páginas da terceira parte do livro: “Retratos de Família.”  Mas há também espaço aí para fazer referência  aos “muitos dissabores (que) estavam ocultos por trás daqueles olhos azuis.” Havia um lado de tragédias pessoais que tinham começado na infância e as quais ele preferia não alardear em público, como acontece às almas  verdadeiramente nobres.
 
“Em Tempo”, título dado à quarta e última parte, traz à baila a  morte de Anésio,  aos 65 anos,  vencido por um câncer; e também  algumas sinalizações sobre  sua vida amorosa depois da viuvez. Comenta  a Lei Municipal que denominou Anésio  Walter  Foroni  um  viaduto no alto da Estação.  Transcreve a letra da música “Conjugando Franca”, de Paulo Gimenes e Afonso Henrique, onde o primeiro, “hoje um adulto sensível que decidiu colocar no papel  as camadas da história da cidade onde nasceu e cresceu, prestou a sua própria homenagem ao farmacêutico que acompanhou seu crescimento.”  O  verso  “sarar com seu Anésio” emblematiza  a figura  daquele que permaneceu no coração do poeta. 
 
Uma biografia tão bem elaborada, detalhada e consistente  não poderia ser concluída de forma mais tocante: em  “Carta ao meu pai”, Moralina Foroni Casas diz: “ O consolo é que sua ausência, longe de distanciá-lo, o faz presença constante em nossa memória e em nossos corações que, agora, neste livro, se postam em permanente tributo ao seu carinho, ao seu cuidado, ao seu exemplo.”
 
E é quase  impossível  colocar um ponto final nestes comentários sem mencionar  as admiráveis fotos do “Painel da Memória”, pertencentes ao arquivo pessoal de Anésio.  Na maior parte em preto e branco, de excepcional qualidade gráfica, elas nos reafirmam em imagens  o que acabamos de aferir nos textos, alguns encimados por versos  imortais saídos da pena de grandes nomes da nossa literatura. Destaco abaixo os de Francisco Otaviano de Almeida Rosa:
“Quem passou pela vida em branca nuvem,/ E em plácido repouso adormeceu;/Quem não sentiu o frio da desgraça;/ Quem passou pela vida e não sofreu;/Foi espectro de homem, não foi homem-/ Só passou pela vida, não viveu.”

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