N., o egocêntrico

Por: Luzia Izete da Silva

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Para ler Nietzsche devemos nos vestir do nada, estar desprovidos de pré-conceitos, neutros, na melhor acepção da palavra. Ele viveu no período  denominado Segundo  Reich, quando a Alemanha viu-se às voltas com as conquistas napoleônicas e ainda nem era a Alemanha, apenas um conjunto de reinos a almejar a unificação. Período agitado e cheio de idéias advindas de ovos de serpentes  que, como Marx e assim outros , já estavam sendo chocados  diante do andar acelerado da história, sob o desenrolar de novos rumos e novas demandas sociais. O Romantismo ganha espaço e  faz o pêndulo  vagar entre avanços e retrocessos, um saudosismo impuro, idealizante, pairado nas sombras matizadas do lusco-fusco. Irreversível é o tempo, e é neste contexto que Nietzsche rejeita a plataforma da racionalidade, pulveriza as verdades até então irrefutáveis para trazer à superfície as dores dos homens, “as Dores do Mundo”, no dizer de Schopenhauer .  Aparece como um “demônio que ri”, um idiossincrático por excelência e por aversão a tudo o que ele via de errado na Filosofia alemã. Em O Crepúsculo dos Ídolos, vagando entre o pathos e a realidade/verdade, estão elencados filósofos de todos os tempos, de gregos a alemães, com suas pseudoverdades. Nietzsche os disseca e os petrifica em estátuas de sal. Escrevendo de forma aforística , sintética e direta, às vezes - muitas vezes! – coloquial demais diante do que esperamos de um  filófoso do XIX, destila mordazmente sobre os alemães a sua ira, liberta seus demônios contra  os compatriotas encharcados de cerveja e moralismo cristão.  

Muitos autores vêem Nietzsche como um divisor de águas entre o metafísico e a verdade. Ele, o Cavaleiro do Apocalipse, o não-cristão, o anticristo, para quem Dionísio era o modelo contraditório, a quem o filósofo reverenciou com os Ditirambos de Dionísio – a antítese, o contraponto, a dialética. É de sua profunda introspecção, de sua saúde abalada, de suas decepções que Nietzsche desmascara os erros milenares da Filosofia. Tomou de Sócrates o “Conhece-te a ti mesmo”, e de lá das profundezas de si mesmo fez emergir a verdade, derrocando toda a metafísica do pensamento ocidental, cujo epicentro era a Alemanha do Segundo  Reich. Entre a doença e a plenitude, entre a moral cristã e os Ditirambos de Dionísio, entre a racionalidade e os humanos, demasiado humanos, eis a dialética! “Eu não suporto essa raça [os alemães], com a qual a gente sempre está  em má companhia,...”. Para nós, demasiado humanos, a linguagem coloquial de Ecce Homo nos leva a ouvir o desespero do filósofo numa explosão egocêntrica. Surpreendente! Os decadents ocidentais, umbilicalmente presos ao idealismo, os quais Nietzsche condena a ‘morrer de frio’. Ecce Homo! Sua ira contra o cristianismo é de uma mordacidade regurgitante: ”Os homens foram considerados ‘livres’ para poderem ser julgados, ser punidos-...”. O livre-arbítrio, a tua escolha ( a causa) te levará  ao castigo, ao julgamento inexorável (a  consequência). Essa é a fraqueza famigerada dos teólogos na insana busca de “criar para si o direito de impor castigos”, dito no Crepúsculo dos Ídolos. Um fado desumano. Quanta cerveja há na inteligência alemã!- dirá também. Assim, sem dó nem piedade, Nietzsche passa ao fio da navalha amigos e inimigos, também a bondade, o altruísmo e a compaixão, a moral dos fracos perdedores. Discutindo filosoficamente com Schopenhauer coloca esses valores metafísicos e idealizados  em antítese com a natureza humana, sintetizada no amor-próprio. É a decadent moral cristã frente a frente às forças humanas instintivas. Conclui que “o cristianismo é a metafísica do carrasco”. O diálogo mais sereno  com Schopenhauer dá-se no campo da Arte, onde podemos captar dois paralelos humanos, demasiado humanos: Nietzsche vê nos instintos humanos uma força positiva, ao passo que Schopenhauer vê na Arte a representação da essência humana, nos artistas holandeses a maior expressão desta humanização: um Ministro de Estado e um Camponês na taberna  trarão  à tona os mais recônditos atos e desejos humanos do pintor que os observa. A humanidade contemplada por si mesma, sem idealizações, sem metafísica. De pontos de partida distintos, Nietzsche, de sua doença debilitante, e Schopenhauer, de suas viagens de jovem rico, partiram de diferentes lugares para encontrar paralelos sobre o que é o homem e suas aflições mundanas, sem metafísica. Afinal, diz Nietzsche em Crepúsculo dos Ídolos: ninguém é livre para ser caranguejo.

“Fui compreendido?”

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