Elogio a Jacques Lacan

Por: Ana Paula Alencar

346641

Jacques-Marie Émile Lacan (1901-1981) foi presença heroica para a união contemporânea da psicanálise com a psiquiatria. No livro Elogio a Jacques Lacan , lançamento da Summus Editorial, o psicoterapeuta Wilson Castello de Almeida apresenta uma visão geral, ampla e apaixonada da vida e do pensamento do psiquiatra. Na obra, a afirmação imperativa de Lacan – “o psicanalista não deve recuar diante da psicose” – é compreendida como convocação para se ter coragem intelectual de aprofundar-se no estudo teórico e clínico da psicopatologia com rigor e ética. “Cabe ao psiquiatra o destemor para ampliar sua prática, formando-se em outra dimensão do conhecimento sem precisar renegar a sua origem médica”, afirma o autor. O lançamento acontece no dia 6 de março, segunda-feira, na Livraria da Vila, em são Paulo.

Ao longo da obra, o psicoterapeuta ressalta os elementos que sustentam as ideias de Lacan sobre a psicose e sua repercussão na clínica psiquiátrica, com destaque para dois casos: Schreber e Joyce. “O meu papel é o do médico, psicoterapeuta com formação em psiquiatria, psicodrama e psicanálise, que se entusiasmou pelo Lacan, também médico, que nunca se afastou da psiquiatria, abrindo, entretanto, espaço para filósofos e não filósofos na compreensão da psicanálise”, diz Wilson.
 
Em suas leituras, o autor afirma ter detectado os três lados de Lacan: o filósofo, o retórico e o clínico – capaz de ver e ler a psicanálise de outro modo. Segundo ele, Lacan é aquele que tira a psiquiatria do limbo das especulações inúteis do “achismo” para dar a ela novo movimento, conforme a evolução das ciências contemporâneas, atrelando-a à psicanálise, que ele relê e enriquece com sua visão criativa.
 
Na obra, Wilson Castello mostra que Lacan questionou, revolucionou e inovou. “Hoje, seu jeito de falar das psicoses atinge a psiquiatria por meio dos psicanalistas médicos – e conquista não médicos para o alargamento conceitual e topológico”, conta, lembrando que ele não ultrapassou a psiquiatria para se tornar um “convertido” à psicanálise. Seu percurso, diz ele, é sem solução de continuidade. “A psicanálise em Lacan é sempre um ir além, marca de sua passagem pela fenomenologia, que tem como um dos postulados o vir a ser”, explica o médico.
 
De acordo com o autor, Lacan exerceu e pensou a psiquiatria e, exatamente para entendê-la, refletiu e exercitou a psicanálise, escalando a rampa epistemológica, incorporando as descobertas freudianas e avançando com seus próprios critérios de cientista atilado e sintonizado com a modernidade. “Superando os conceitos energéticos da psicanálise fisicalista, fê-la desembocar no terreno da linguagem e da palavra falada, no qual a sociabilidade e os fatores culturais são essenciais para entender os fenômenos do psiquismo humano”, complementa.
 
A capa do livro reproduz, segundo Wilson, uma das principais teses de Lacan. Para o psicoterapeuta, “A grande onda de Kanagawa”, mais conhecida como “A onda”, famosa xilogravura do mestre japonês Katsushika Hokusai, é uma belíssima interpretação. “No fundo da tela vê-se impassível o monte Fuji, com sua imponência, e no meio das águas voluptuosas barcos engolfados à deriva. A grande onda sugere-nos a “grande boca”, a “grande língua”, a hiância envolvendo e lambendo de forma amedrontadora aos cautos e incautos com sua ‘certeza horrível’: a fragilidade da existência humana”, conclui.   
 
Wilson Castello de Almeida diplomou-se médico pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).Mestre em Psiquiatria pela Faculdade de Medicina da Universidadede São Paulo (USP), é formado em Psicodrama pela Sociedade de Psicodramade São Paulo (SOPSP). É pós-graduado em Teoria e Práticada Psicanálise pelo Instituto de Psicologiada USP e membro correspondente da Academia Mineira de Medicina. Sócio-fundador da Associação Brasileira de Psicoterapia (Abrap), foi presidente do Departamento de Psiquiatria da AssociaçãoPaulista de Medicina (APM) e secretário-geral da Associação Psiquiátricada América Latina (Apal).Por dez anos foi editor da Revista Brasileira de Psicodrama, tendo publicado vários livros, entre eles: Defesas do ego – Leitura didática de seus mecanismos; Psicoterapia aberta – O método do psicodrama, a fenomenologia e a psicanálise; e Rodapés psicodramáticos– Subsídios para ampliara leitura de J. L. Moreno, todos editados pela Ágora. Lançou também, em edição do autor, A clínica da psicose depois de Lacan. 

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras