Selvageria e racionalidade

Por: Lúcia Helena Maniglia Brigagão

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Stanley Kubrick roteirista, produtor de cinema e fotógrafo americano é considerado um dos mais importantes cineastas de todos os tempos. Autor de grandes clássicos, como “2001 – Uma odisséia no espaço”, deixou os fãs de cinema boquiabertos ao abrir esta obra-prima com a cena antológica do ancestral do homem que, após abater um animal pega um osso do fêmur da carcaça, emite grunhidos ao se sentir poderoso, ergue seu troféu e o lança para cima. O osso arremessado sobe em câmara lenta, gira, gira e sofre transformações. O som dos acordes inconfundíveis do Danúbio Azul, a valsa vienense de Strauss, acompanha todo o processo desta metamorfose. Enquanto a música cresce em volume, o osso continua subindo, girando, vai para o espaço, continua sua trajetória, até se transformar completamente numa nave espacial. O antológico filme, classificado como ficção científica, é de 1968 e adaptação de conto de Arthur C. Clarke. Nesta abertura, que dura alguns minutos, o Homem sai da mais extrema condição de primata e chega ao apogeu do brilho de sua inteligência, simbolizado pela criação de veículo que lhe permite viajar no espaço sideral. A cena e a possibilidade, ambas impressionantes, me são reavivadas toda vez que algum fato que demonstra o tamanho da estupidez e da ferocidade humanas é divulgado. O ser humano é capaz de ser irracional e demonstrar seu lado anjo, quase simultaneamente. O ser humano é capaz de matar estúpida e friamente seu semelhante nas guerras, nos ataques ideológicos, nos atentados, no bar da esquina, seja em nome da religião, de princípios ideológicos, por puro dilentantismo. Dizem, o Homem moderno já perdeu muitas características físicas que o fazia aproximar-se visualmente dos seus ancestrais. Perdeu os pelos do corpo, o dente canino retraiu. Não demora, dizem, o Homem perderá partes menos úteis do seu corpo com a configuração atual como o dente do siso, amídalas, vesícula, o apêndice e até o baço, por incrível que pareça. Dizem, perderá também o cóccix, chamado pelos estudiosos de “osso da cauda”, que fazia parte do rabo de nossos antepassados. Dessa perda, particularmente, duvido. Diante de tanta barbaridade que o ser humano comete contra seus semelhantes, acredito que tal vestígio voltará a se desenvolver. Sua aparência corre o risco de voltar a ser de primata, absoluta e assumidamente selvagem. 

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