Coisas imperdoáveis.

Por: Sônia Machiavelli

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Três notícias me perturbaram na semana  que passou. Todas têm crianças como protagonistas.

A primeira veio de Aleppo, a antiga cidade síria que está sendo destruída de forma sistemática e violenta há cinco anos. Al Bashar, o presidente do país, considerado cabeça brilhante e coração generoso  ao ser eleito, transformou-se num ditador  crudelíssimo  a quem a vida de seus concidadãos vale nada. Empenhado em aniquilar o Estado Islâmico, que tomou algumas cidades sírias, já matou milhares de homens, mulheres e crianças de seu próprio país. 
No final de janeiro, quando se considerava  uma possível trégua nos bombardeiros, o lado oriental de Aleppo, já praticamente aniquilado, foi violentamente alvejado. Morreram muitos, outro tanto foi levado à prisão. Num amontoado de concreto que um dia fora uma casa de dois pavimentos,  seis crianças sobreviveram e foram encontradas no último 6 de março, em situação capaz de sensibilizar a mais impermeável das almas.
 
 A equipe de assistentes sociais, pertencente  a um Grupo Estrangeiro de Ajuda Humanitária, chegou ao local  e deparou com a menina mais velha, de 12 anos, segurando a caçula, de seis meses, envolta num  cobertor imundo. Aliás, todos estavam sujos e o local cheirava mal, segundo a reportagem exibida pela  Globo News. Os outros quatro mantinham o silêncio impenetrável  dos traumatizados. Um deles insistia em ficar ali naquele amontoado de pedras e vigas de ferro retorcido, pois acreditava que os pais viriam resgatá-los. Foram necessários sensibilidade e tato de um profissional de Saúde  Mental  para convencê-lo a entrar no micro ônibus que conduziu os irmãos para um abrigo. No arremate da notícia, a informação de que os seis sobreviveram no bairro destruído trocando sucata por pão e água. “É espantoso que tenham aguentado sete semanas sem terem contraído doença grave- apenas o menino de seis anos estava com bronquite”, explicou uma assistente social.  Ficamos sabendo também que a mãe saíra pouco depois da prisão e tinha preferido manter os filhos no abrigo até conseguir um lugar seguro para levá-los. O pai continua preso, na versão da ditadura acusado de dar cobertura a membros do Estado Islâmico.  
 
A segunda notícia tem como personagens também crianças vítimas das guerras que assolam o mundo.  Por caminhos diversos, nos últimos três  anos  dezenas   chegaram ao Brasil com suas famílias, numa tentativa de escapar à morte a que estariam condenadas se permanecessem em seus países de origem.  Uma delas, menina de 11 anos, vinda de uma nação de língua árabe, vive numa quitinete com os pais e um irmão, no centro velho da nossa capital.  A matéria publicada no último domingo pelo Estado de São Paulo nos mostra a angústia da criança na escola da  rede municipal de ensino que frequentou por alguns meses em 2015.  Mal acolhida, mal compreendida, discriminada, capaz de dizer  apenas duas palavras em português -  “Sim” e “Tá bom”- foi  considerada autista pela professora. Encaminhada a um centro de atendimento psicológico e, depois, a uma ONG onde aprendeu em poucos meses o básico do idioma português, voltou à escola e, no final do ano letivo de 2016, foi aprovada para a série seguinte com boas notas. Um exemplo de coragem, tenacidade e resiliência. No caderno com motivos infantis, as primeiras páginas trazem vocábulos escritos em árabe, pois ela fora alfabetizada em seu país, mas as seguintes já mostram sua evolução em português.   Uma frase comove,  pelo que revela da infância que sobrevive a essa avalanche de sofrimentos: “Eu amo brigadeiro”.
 
A terceira notícia, de grande repercussão no Brasil e lá fora, trouxe à tona no último final de semana  o assunto da carne podre. A história,  se por um lado foca nos produtos mal  conservados e adulterados, também coloca o dedo na ferida da corrupção. Locupletaram-se políticos, fiscais, gerentes, empresários. E tudo começou a ser desvendado na rede pública de ensino do Paraná, onde a merenda das crianças  era um simulacro de salsicha de peru, pois o embutido, em lugar de carne dessas  aves, continha mesmo era soja, fécula de mandioca, carcaça de frango  e outros componentes menos palatáveis.  Difícil de engolir.
As três notícias que  mexeram comigo me fizeram passar por uma experiência inquietante. Na madrugada de segunda-feira,  depois de  muito tentar , consegui adormecer. Mas de repente despertei e vi  nitidamente num canto do meu quarto uma criança pequena, rosto limpo, mas com cabelos despenteados e  roupa enxovalhada. Ela  me fixava com seus olhos muito abertos sem dizer nada. Pulei da cama e esfreguei os olhos: o que era aquilo? “Com certeza  a  extensão de um sonho,” explicou minha analista. 
 
Por isso escrevo este texto, com jeito de crônica e forma de desabafo diante da indiferença e crueza com que tantos e cada vez mais vêm  tratando  crianças que deveriam  ser a porção mais esperançosa da humanidade. É imperdoável o que tem sido feito contra elas.  E também o que não tem sido feito a seu favor.  

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