colombo

Por: Luiz Cruz de Oliveira

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A porta fechada, a janela e a cortina cerradas, mais os óculos de breu, limitando o horizonte, viram parede única – tapa-olhos que apaga o sol.

Então, olhos que eu não sabia viajam – Colombo singrando oceano negro. O navegante aporta em ilha tropical, ancora sua caravela entre iates de todos os calados. Percorre alamedas e vê o velho com a mão estendida em busca de pão. Surpreende-se ao ver doentes estendidos em corredores de hospitais.
 
Noutro cais, depara com meninas esquálidas chupando sorvete pago com dinheiro de prostituição.
 
Depois viaja para as bandas do lugar onde a História começou. Do pequeno barco, à sombra de encouraçados e porta-absurdos, admira as dunas. Desembarca, caminha pelo areal por onde caminhou messias. E fotografa as marcas profundas e indeléveis de botas invasoras. Custa a acreditar que assiste à morte do direito de auto-determinação das gentes, provocada pela baioneta da prepotência e pela razão da força.
 
Perplexo, interrompe seu navegar.
 
E agora tenho medo de descerrar cortina e janela, de abrir a porta.
 
Medo enorme de que a claridade me cegue outra vez e outra vez apague dos meus olhos o mundo que construímos fora do meu quarto.

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