Meio Termo

Por: Maria Rita Liporoni Toledo

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Vera Lúcia acatara seu estado de viuvez com serenidade, mantendo um feixe de recordações enlaçado com carinho, em sua memória. Com sessenta anos, filhos encaminhados, não mais trabalhava em seu escritório de advocacia que lhe assegurava uma participação nos rendimentos suficiente para tornar sua vida ativa e agradável. Gestora de sua vida, fazia terapia, atividades físicas, cursos de autoconhecimento, participava de grupos assistenciais e religiosos. Gostava de ler, sempre esteve bem informada e com muitos amigos a sua volta. Não lhe faltava companhia para viagens e lazer, mas o seu forte era sua aparência. Desde jovem cuidava-se com primor, cremes faciais mantinham sua pele hidratada e radiante, cabelos bem cortados, com retoques semanais de tintura, unhas feitas. Não saía de casa sem os olhos delineados e, nos lábios, batom de cores vibrantes. Vestia-se com elegância, sempre, acompanhando as tendências das temporadas, não dispensava as joias ou bijuterias. Conservara-se esbelta, pois antecipara-se aos infindáveis conselhos de nutricionistas e receitas com produtos naturais que se encontram em profusão na internet, atualmente. Sua alimentação era comedida e variada, mas, cautelosa, nunca repetira um só prato! Enfim, prezava o exterior, sem descuidar do seu interior. Tinha autoestima alta, segura e confiante. Estava contente com a sua pessoa e era feliz. Não sentia falta de companhia masculina em sua vida, fora feliz e isto lhe bastava.Começou a receber inúmeros e-mails em seu correio virtual do Alfredo, um colega de bancos escolares que insistia em reencontrá-la. Ele procurava reatar antigos relacionamentos, pois aposentado, dispunha de tempo e ilusão, esquecendo-se de que o tempo é implacável. Vera Lúcia lembrava-se dele, um mocinho alegre, com uma vasta cabeleira preta, uns olhos profundos e sorriso amplo que criava duas covinhas marotas em seu rosto. Era do time de basquete e tirava boas notas.

Será que convinha aceitar seu convite, pensou ela, e, movida pela curiosidade, marcou um encontro, em uma cafeteria perto de sua casa. Ao chegar, procurou uma mesa discreta e sentou-se. Olhou ao redor e não viu ninguém que lhe lembrasse o colega Alfredo. Numa mesa distante, um senhor idoso chamou-lhe a atenção, com uma barba branca comprida em contraste com a calva brilhante. Sentado, longe da mesa, pois sua barriga o impedia de aproximar-se, lia o cardápio com os óculos sobre o nariz. Ela visualizou uma bengala pousada na cadeira e deduziu que ele mancava.

Desviou o olhar para ver se encontrava Alfredo, quando uma voz rouca e pastosa, própria de quem usa muitos medicamentos, apresentou-se como sendo o Alfredo e perguntando se ela era Vera Lúcia. Desculpou-se e saiu, apressadamente, assustada e trêmula para a movimentada calçada. Demorou a refazer-se do impacto causado por aquela figura tão diferente da que conhecera. Não restara um só fio de cabelo daquela cabeleira linda e as covinhas foram encobertas pela barba espessa, suspirou ela. Em sua vida afora, algumas vezes tinha sido criticada por sua vaidade e por cuidar-se muito, mas nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Apressou os passos em direção ao seu carro.        

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