De olhos fechados

Por: Isabel Fogaça

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"Com um sorriso deste tamanho quem precisa de olhos?" É uma das primeiras frases do meu livro favorito. No enredo, a menina faz um auto  retrato tímido no papel e esquece de traçar os próprios olhos; logo, o padrasto, que tinha como característica predominante o otimismo, faz tal comentário. Durante anos esta frase, de tão significativa, insiste em morar em meus pensamentos, e para mim ela fala de amor.

Pensando nisso, certa vez, em viagem com a minha mãe, ela desabafou: "Filha, eu só amei uma vez!" E logo calou-se num olhar preso no caminho distante. Eu sabia quem era, e sabia que seu coração doía. Minha mãe aprendeu muitas coisas quando amou pela primeira vez. Seu amante (eu o chamarei de S.R.) era um senhor elegante, amado por todos, inteligente; perdi a conta de quantos títulos internacionais havia recebido por suas pesquisas que tinham como objetivo ajudar pessoas portadoras de deficiência, e por como tornar o mundo um lugar justo a todos.
 
S.R tinha olhos azuis gigantes cobertos por sobrancelhas brancas que pareciam nuvens dispostas a brincar com o céu em volta das pupilas. Seu sorriso largo era sustentado por uma barba comprida. S.R era cadeirante, havia perdido o movimento das pernas quando jovem. O motivo: um câncer na medula. Porém, sua vontade  de viver, ajudar, e crescer, era tamanha que os que viviam em sua volta quase diziam: "Com um sorriso desses, quem precisa de pernas?".
 
Depois que minha mãe amou pela primeira vez, tornou-se diferente, tocou as coisas com mais motivação, percebeu a curta validade dos momentos únicos e verdadeiros da vida, e mesmo após o falecimento de S.R ela às vezes diz esperançosa: "Você acredita que com toda essa imensa bondade ele veio me visitar durante a noite?" esboçando um sorriso comprido. 
"Acredito, mãe. Com um sorriso deste tamanho, quem precisa de olhos?".

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