Aniversário

Por: Angela Gasparetto

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Era meu aniversário e estava trabalhando o dia todo, presa a um horário que não me liberava e ainda tinha que comprar uma torta para a noite. 
 
Fim de tarde, as lojas fechando, peguei o velho Fusca azul e saí correndo para as compras. Passei em casa e peguei minha irmã que era a “seguradora-oficial de tortas” da família.  
 
Para complicar, ainda tinha que pegar a outra irmã no trabalho e trazer todo mundo para a casa onde os amigos nos  esperavam.
 
Quando parei o Fusca na esquina próxima à padaria, toca uma garoa fina de desmanchar qualquer escova que você queira preservar...
 
Muito bem, nada que iria atrapalhar a festa. Peguei a torta e entreguei nas mãos da seguradora-oficial sentada ao lado, na minha frente. Corre, corre que o tempo urge!
 
Neste momento, liguei o Fusca e nada. Mortinho. Desesperei.
 
Minha irmã do banco de trás já irritada,  teve a brilhante ideia de chamar um táxi dizendo: “Depois a gente busca este Fusca do tempo do onça!”.
 
Sem celular na época (pois ainda acreditava que poderia viver sem o tormento do aparelho), sofremos para chamar um táxi no orelhão molhando as “chapinhas e escovas de todo mundo”. 
 
Fora a briga da irmã sentada no banco de trás, para quem tudo tem que estar na mais perfeita ordem no universo, e se alguma coisa deu errada, a culpa é definitivamente SUA.
 
Lá vem o incauto do táxi, eu na chuva, já toda molhada acenando.
 
O táxi parou, a seguradora-oficial de tortas saiu placidamente do Fusca e entrou placidamente nele, com cara de quem estava lá apenas para segurar a torta e não para resolver problemas mecânicos.
 
Todas cobrindo a “chapinha” e corre entrar no táxi. Agora vai!
 
Lego engano, quando o motorista ligou o carro, NADA. Mortinho. 
 
Olhamos umas para as outras e pensamos: “Uia”! Que a noite começou bem!
 
“É bateria, dona, tenho certeza! – disse o motorista. “Mas as moças não vão ficar na mão, não”. Pode deixar!” – completou. 
 
O motorista do táxi, que descobrimos mais tarde era um iniciante, parou o carro entre outros dois, a rua era inclinada e não conseguia sair e dar o famoso “tranco”, ou seja, qualquer movimento do carro, o mesmo iria direto para o outro lado da calçada. 
 
E não é que o motorista teve realmente a brilhante ideia de fazer isto? Saí eu a “irmã-que-culpa todos” e lá fomos nós ajudar o pobre do motorista a fazer a manobra. 
 
Chuva grossa agora e força no braço e como estava pesado!  Olhei para trás e vi a seguradora-oficial de bolos sentada placidamente  ainda no táxi como quem diz: “O que posso fazer, tenho que cuidar da torta”.
 
Alguns transeuntes nos auxiliaram e quando o carro saiu, o motorista teve outra brilhante ideia de empurrá-lo de ré para deixar encostado no outro lado da rua.
 
Nisto, o carro perdeu o controle ainda com a seguradora-oficial de tortas dentro e foi descendo direto para a porta fechada da primeira loja que encontrou. 
 
Toca o motorista correr atrás do táxi para segurar o freio de mão em tempo e evitar a colisão. Neste momento, a "irmã-que-culpa-todos" e que estava comigo de fora do carro, me olhou e disse: “Ângela, minha filha, você está  carregada! Precisar rezar muito! Olha o que o seu aniversário está fazendo!”
 
Disse nada, chamei outro táxi e quando o mesmo chegou, eu já toda molhada, cabelo e humor em frangalhos, minha irmã já querendo ir a pé para casa, toca a seguradora-oficial de tortas sair placidamente do táxi, entrar no noutro e dizer: 
 
“Este vai, moço”? Tá “pegando” “né”?  E olhando para mim entre divertida e séria:
 
“Não fique brava! O que seria de você se eu não estivesse aqui para cuidar da sua torta?”

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