Vinte anos a mais

Por: Maria Rita Liporoni Toledo

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Aos quarenta anos, tinha na pele tenra e macia o veludo de uma pétala de rosa, o que lhe emprestava uma aparência jovial. Uma boa genética, complementada com os cuidados de médica dermatologista que era, tornavam-na  bela e atraente. Paula, quando jovenzinha, dedicara-se aos estudos e a estabilizar-se profissionalmente. Não se casara e gostava de morar sozinha em seu personalizado apartamento.
 
Surpreendida em seu consultório por um jovem alto e atlético que a procurara para tratar de uma simples queimadura em uma das mãos, sentiu-se estremecida diante daquele deus grego, de cabelos cacheados, olhos brilhantes, pele morena, nariz e queixo fortes como convém a uma figura masculina. Um sorriso franco e decidido revelava alvos dentes, numa boca provocante. Aparentava ser bem mais velho que os vinte anos anotado em sua ficha. Tudo isso ela notou num olhar clínico, onde o coração também se fez presente. Mateus era seu nome. Ele, também, se impressionara com aquela mulher de quarenta, de sorriso bonito, firme e decidida, não tão jovem como ele, mas que parecia acreditar no amor! Um encontro marcado, emoções aflorando, ele “ só queria ser seu namorado”.
 
Conheceram-se melhor e casaram-se em seis meses, enfrentando muito preconceito de pessoas próximas e distantes. Mateus terminou seu curso de Direito, ministrava aulas em faculdades e escrevia livros didáticos na área. Ela participava de congressos, atualizava-se constantemente. Amava sua profissão. A juventude dele arejava a relação que se alicerçava na força do amor, na mansidão e na postura de vida voltada para o bem e para o humano.
 
Foram felizes por vinte anos, quando ela, aos sessenta, começou a sentir que o seu físico não acompanhava sua mente. Surgiram as dúvidas, a insegurança, as dores. A separação foi inevitável, mas foi pequeno o tempo em que ficaram longe um do outro. Tinham fortes vínculos em comum e um sentimento verdadeiro.
 
Quando retornaram, foram vivenciar a primavera em Paris, como forma de revigorar o corpo e o espírito. Visitaram museus e deleitaram –se  com a contemplação das obras de Renoir, o pintor existencialista que amava o belo, o brilho da vida e a figura das pessoas, pintando-as, em seus quadros, em meio às luzes, às formas e cores da natureza.
 
Quando Paula completou setenta anos, com saúde e alegria, ele acariciou seus cabelos, naturais, mesclados de preto e branco, admirando-se da suavidade que eles continham.

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