INESPERADO

Por: Roberto de Paula Barbosa

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Domingo ensolarado, lá pelas nove horas da madrugada, gosto de ir à feira livre para espairecer e fazer algumas compras, sentir os aromas variados, a começar pela garapa com limão, logo no começo da feira, onde a cana é esmagada na hora, com um pouco de gelo – recomenda-se não adicionar açúcar para não alterar seu sabor natural. Passeio pelas barracas, a começar pela dos pastéis fritos na hora, exalando seu perfume característico.
 
Vejo as tendas cobrindo as bancas de peixe, carnes e frangos, pimentas de variegadas cores e sabores dentro de vidros reluzentes e de todos os tamanhos, doces para diversos paladares, farinhas, pães, roscas e biscoitos, pamonhas cozidas na hora, frutas de toda espécie, além de outras coisas inusitadas, que talvez só se encontrem no Supermercado do Aparecido, tais como buchas de metro, peças de reposição de panelas, borrachas, roupas, botinas, artesanatos de crochê, de brincos, pulseiras, colares e outros enfeites. Ando pelo meio dos fregueses ávidos por verduras e legumes das mais variadas espécies, ouvindo o clamor insistente do vendedor que vende “Cinco misturas por dez”.
 
Gosto também de ver a banca que vende diversas raízes, ervas, cascas, sementes e caroços vegetais que curam dores de cabeça, enxaqueca, mal do olho gordo, de corno, cura até unha encravada e diversos outros males. Tem a semente da Mucunã, que cura até câncer, antibiótico doido, depurativo e limpeza do sangue, combate icterícia, hepatite, atrai mulher bonita e até dinheiro, segundo a vendedora.
 
Mas o melhor que me aconteceu dia desses, ao voltar da feira, carregado de sacolas, no meio do quarteirão, foi ver um amigo do peito, posso dizer que é um irmão, trajando uma camisa branca com um pequeno símbolo da empresa em que trabalha, já que estava de plantão, segurando uma chave de roda, pronto para trocar o pneu de um carro. Parei para cumprimentá-lo e saber como poderia ajudá-lo com tal tarefa, embora eu, na minha idade e com minha barriga, custo a calçar os meus sapatos. Ele disse-me que sua sogra foi estacionar o carro e a roda dianteira esfregou na sarjeta e furou o pneu, ficando nela encostado. Avaliei a situação e disse-lhe que o seguro poderia solucionar o problema, mas a sogra estava com pressa e a filha ansiosamente aguardava uma atitude do marido. Não era um problema insolúvel, pois com muita dedicação, bastante suor, camisa branca de escritório fazendo as vezes de macacão de mecânico, poder-se-ia efetuar a troca com facilidade pelo estepe sujo preso dentro do porta-malas. A essa altura, fazendo-me de solícito, mas com algo urgente para fazer em casa, despedi-me efusiva e rapidamente.
 
Gente, eu realmente não gosto de ver um amigo sofrer, não sou sardônico e não me aproveito de situações embaraçosas, mas sair da feira, de bermudas e sandálias, saboreando um sol maravilhoso de manhã e ver um irmão entrar pelo Cano naquela situação, não tem preço.
 
Roberto de Paula Barbosa
Aposentado e liso 

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