Uma poeta à frente de seu tempo

Por: Sônia Machiavelli

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“ Para preencher um Vazio
Inserir  a Coisa que o causou _
Tentar  bloqueá-lo
com Outra – é mais o escancarar
Não se pode soldar um Abismo
Com Ar”

 
Este e outros 54 poemas de Emily Dickinson o leitor encontrará em Loucas Noites, lançado no mês passado pela Disal, que tem no seu catálogo grandes  clássicos da poesia de todos os tempos. Edição especial em versão bilíngue, texto original em inglês ao lado da  tradução para o português, o livro revela cuidado e capricho desde a escolha da capa à concepção editorial que nos permite navegar com encantamento e certo espanto pelas 208 páginas.  
 
Emily Dickinson (1830-1885), para os que a desconhecem, nasceu, viveu e morreu na casa de sua família, em Amherst, Massachusets; demonstrou talento para as letras desde cedo;  foi ignorada com obsequioso silêncio pelo meio literário de seu entorno. Mas redescoberta em meados do século XX  vem ganhando  cada vez maior notoriedade. Sua importância não cessa de ser desvelada. A profundidade de suas temáticas  e a originalidade do estilo angariam cada vez mais leitores e críticos. Ela foi, com certeza, um espírito avançado para sua época, a tal ponto que seus poemas breves, de forma livre, pontuação instigante  e maiúsculas expressivas provocam intensa ressonância no leitor de nossos dias.
 Os insights a respeito da precariedade da existência, da vasta gama dos  sentimentos, da morte e também da natureza  ganham nos seus versos a fulgurância da verdade e da beleza, para a poeta dois valores equivalentes: 
 
“ Morri pela Beleza, mas apenas estava
Acomodada em meu túmulo,
Alguém que morrera pela Verdade,
Era depositado na carneira próxima.
Perguntou-me baixinho o que me matara.
– A Beleza, respondi.
– A mim, a Verdade, – é a mesma coisa,
Somos irmãos.
E assim, como parentes que uma noite se encontram,
Conversamos de jazigo a jazigo
Até que o musgo alcançou os nossos lábios
E cobriu os nossos nomes”
 
Em Loucas Noites, leem-se poemas selecionados entre os mais conhecidos da Autora, com o cotejamento do original e da versão;  bem como breve comentário sobre a tradução de cada um, biografia da poeta, fac-símile de três manuscritos. O destaque vai para o trabalho de Isa Mara Lando. Sabe-se que toda tradução é arriscada, pois jamais encontraremos palavras absolutamente correlatas e equivalentes em dois idiomas. E se verter prosa é difícil, fazer isso com poemas é um desafio enorme. Foram necessários anos de trabalho para que Lando presenteasse o leitor brasileiro com parte da obra desta misteriosa e complexa  poeta que hoje se encontra na lista dos maiores nomes da literatura do Ocidente.   
 
E, providência ou coincidência, ao mesmo tempo em que Loucas Noites era  lançado, estreou em salas da nossa capital o filme Além das palavras, do diretor inglês Terence Davies, com Cynthia Nixon como protagonista. Davies não faz filmes lineares e tem predileção por perfis femininos, vários em sua carreira. Assim, recusou-se a contar uma história que também poderia ser expressiva, com foco no período conturbado do final do século XIX e contextualizada no bonito cenário do sul dos Estados Unidos. Ele preferiu  retratar de forma intimista a devoção de Dickinson à Literatura, sua rotina pacata, as paixões contidas, o gosto pelos objetos simples, especialmente a solidão e o olhar crítico sobre uma época que não era favorável à sua personalidade, às suas paixões, à  forma peculiar de fazer literatura, rompendo com o estabelecido e criando formas novas para traduzir emoções e percepções. O novo assusta sempre; ir contra o status quo pede muita coragem. Desalojar-se do conforto é insuportável para a maioria. 
 
De opiniões fortes desde muito jovem, foi obrigada a deixar a tradicional escola onde estudava por não abraçar a fé religiosa. Durante toda a  vida, viajou apenas duas vezes, e rapidamente, para se tratar de um problema de saúde em cidades próximas à sua.  Num desses deslocamentos apaixonou-se mas  não foi correspondida. Passou a vida dentro de casa, e, nesta, cada vez mais retirada no seu quarto, conversando apenas com a cunhada, o irmão, a irmã. Mas escrevia. E muito. Depois de sua morte, a irmã encontrou 1755 textos numa gaveta e lutou para vê-los reunidos em livro, pois em vida Dickinson  tivera apenas dez  poemas publicados no jornal local. No filme, o diretor faz esse relato  enriquecendo-o com versos recitados  em off por voz suave que busca reforçar a metáfora das imagens que vão se sucedendo em ritmo lento. O mais célebre dos poemas está lá, claro: 
 
ETC E TAL
“Não sou Ninguém! Quem é você?
Ninguém_ Também?
Então somos um par!
Não conte! Podem espalhar!
Que triste_ ser_ Alguém!
Que publica_ a Fama_ 
Dizer seu nome _ como a Rã_
Para as palmas da Lama!”
 
O filme, como o livro,  é  obra de arte marcada pela melancolia. Não recomendada, portanto, para quem busca ação, aventura, euforia, amor e finais felizes. 

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