A volta do mundo em sete dias

Por: Isabel Fogaça

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Na segunda-feira eles se beijaram pela primeira vez, e foi dentro do carro dele num posto 24 horas. Ele disse que ela era diferente, e ela disse que estava a fim de se permitir. Naquela noite falaram da fragilidade dos laços humanos de forma que uma palavra foi se amarrando na outra até que surgiu o “gostaria de te ver novamente”.
 
Na terça-feira, ela conheceu seu suco favorito e ele saiu da dieta tomando açaí com o dobro de Nutella. E logo depois de um dia cansativo, ela que não admite atrasos, se atrasou porque eles se beijaram novamente na porta do trabalho dela. Não pararam de se falar pelo celular um minuto sequer, ele falava do cheiro no carro, ela falava que gostava do nariz dele. Neste dia os amigos dele e dela já tinham ouvido falar sobre os dois.
 
Na quarta-feira ela já tinha um papo de estar apaixonada, e ele disse que imaginava os dois juntos fora do país. Ela disse que queria fazer o doutorado em Portugal, e ele tinha vontade de desbravar o mundo num intercâmbio porque o Brasil estava se tornando pouco. Dormiram na casa dele com a TV ligada num filme ruim, e ela usou a sua cueca.
 
Na quinta-feira ele se abriu demais e contou a ela seu pior segredo, sabendo o risco que corria. Ele chorou porque aquilo ainda o incomodava, e estava sobrecarregado com o fim da faculdade. Ela sentiu uma estranha sensação de empatia e confiança que ia crescendo dia após dia, e disse que ele não era uma má pessoa pelas coisas que tinham acontecido, depois falou que a fase ruim passaria aconchegando-o num abraço.
 
Na sexta-feira fizeram uma tatuagem juntos. Ela o ano de nascimento de sua mãe, e ele a morte segurando uma foice. Enquanto ele passava seis horas deitado na maca ela escrevia uma carta que dizia que estava feliz, e ele respondia em seguida enquanto comia ovos e tomava o café solúvel na casa dela de manhã, onde também estava.
 
No sábado tiveram a primeira briga, disseram que era melhor se afastar e sentir o que aconteceria. Ela disse que gostaria que ele beijasse outras garotas se sentisse que fosse preciso, ele disse que não gostaria, mas entenderia se acontecesse, porém não queria ficar sabendo. Uma coisa estranha segurava o coração dela,  mas já não era mais as mãos dele, e o dele ela já não sabia. À noite ela chorou no trabalho porque as coisas parecem mais intensas depois de oito cervejas, então, ela enviou uma mensagem dizendo sobre sentimentos rasos citados no primeiro encontro, e ele só respondeu no domingo.
 
No domingo estava confirmado, era mesmo o fim porque “as coisas se perderam”. A roda gigante apagou suas luzes, então puderam descer. O avião enfim pousou, porque a volta ao mundo chegou ao fim. Então, a segunda-feira começará mais uma vez, e outra vez, e depois mais uma na outra semana. As coisas parecem recomeçar iguais todos os dias, porém, depois dessa viagem, diante do peso das malas, os dois se sentem diferentes.

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