Náufraga

Por: Luiz Cruz de Oliveira

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É uma ilha. Grande demais e habitada por uma única alma.
 
É uma ilha. Grande demais. 
 
Nenhum sinal de pegada macula a alvura de suas praias, que parecem infinitas.
 
É uma ilha grande demais. 
 
Suas florestas inexploradas sobem montanhas, suas copas tocam o céu. Contrastando com o verde das árvores e com o celeste, o marrom dos penhascos se afunda na água salgada. Ondas brincam de morrer, de fazer espuma, depois de se quebrarem em seu peito.
 
É uma ilha grande demais o meu corpo.
 
Nele a alma se exercita como pluma, em sinuosos vôos pela praia, mergulha no azul, plaina sobre a água tépida do oceano, repousa sonolenta à sombra de palmeiras que ensinam espiritualidade, buscando incessantemente o alto. Dorme ao lado de cascatas e fontes que entoam hinos.
 
É uma ilha grande demais e desconhecida quase por inteiro.
 
De quando em quando, as nuvens brancas fogem assustadas, como se chicoteadas por invisível algoz.     
 
É o inimigo que chega. 
 
Saído das profundezas do céu, monstro escuro se avizinha. Sua chegada é precedida de seus gritos lúgubres e roucos e de suas cusparadas de fogo que ferem troncos e vegetação. Paira no espaço e verte água sobre as águas e sobre as árvores e sobre os rochedos e sobre a ilha toda.
 
As ondas tentam ficar em pé para fugirem à desgraça, as árvores assoviam, pedindo socorro. E não há escapatória.
 
Ao ouvir o primeiro grito do monstro, a alma se enfurna em sua caverna. Na defensiva, fica vigilante, à espreita. 
 
Quando os ruídos se calam, a alma, por temer o escuro, acende uma fogueira e aguarda a chegada do sol.
 
Ele sempre chega.  E espanta todos os espectros.

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