Querido tio,

Por: Isabel Fogaça

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acordei  tarde e sem vontade de comer, meus olhos estão inchados devido a alguma inflamação alérgica, parece que chorei, e me sinto tão apática que não expressei uma emoção sequer. Fiquei horas na cama refletindo qual era a semente venenosa que me contaminara com o estágio depressivo, levantei e encarei meus olhos vermelhos no espelho, enquanto pensava na dívida do cartão de crédito sem que aquilo me abalasse; percebi, então, que maio estava quase em óbito e que logo se iniciaria junho, da mesma forma, e pela terceira vez.
 
12 de junho foi quando você tomou três cartelas de antidepressivos e regou com álcool como se quisesse ver flores de felicidade brotando do seu intestino de modo que isso diminuísse o peso de estar vivo.
 
Desde que você conseguiu cessar sua vida, como quem para com naturalidade um ônibus de volta para a casa após um dia cansativo de trabalho, muita coisa aconteceu. O vô teve câncer e um AVC, os médicos disseram que foi em conta do estado emocional; a tia Meirinha continuou por muito tempo a mesma, caçando cachorros nas ruas com o objetivo de diminuir sua vontade inconsciente de filhos; o tio Nenê ainda bebe como um camelo; e minha mãe continua a mesma, porém não consigo fazer críticas a seu respeito devido à nossa ligação emocional, mas posso adiantar que continua ansiosa.
 
Como vê, muita coisa aconteceu nos últimos três anos,  sei que se eu contasse presencialmente, você esboçaria desdém  e se prenderia à crítica do meu sotaque "horrível" do interior de Minas. Sei que iria rir de tudo isso e depois se deitaria com superioridade mas quando batesse a cabeça na fronha rasgada lavada à mão e a sabão de coco pela vó, pensaria em nós com amor.
 
Quando você morreu, todos os dias doeram no fundo da alma, com ênfase na primeira noite: eu,  minha mãe e meu irmão dormimos abraçados no chão da sala; a tia Meirinha não fez conta em deitar num colchão magro que dava pra sentir o piso frio da cozinha, e o vô e a vó deitaram de porta aberta no quarto ao lado. Que sensação desumana, não preguei o olho por mais de cinco minutos, e quando acontecia, eu era acordada pelo choro fino e soluços da Meirinha.
 
Desde então, essa sensação estranha anda ao meu lado feito sombra e não me abandona nem no escuro. Achei que ficaria louca pois perdi a dimensão do dia, sentia que a noite era maior e tentava me engolir. Tomei alguns remédios comprados com receita porque virei dias sem fechar os olhos, sem nenhum esforço para que isso fosse possível. Muitas vezes larguei pratos inteiros nos restaurantes porque era muito natural me lembrar de você deitado, gelado e rodeado de flores de cheiro forte. Minha única solução por meses foi chorar e correr.
 
Hoje eu sei que você não idealizou nada disso, estava muito cansado, mas o que passamos foi um efeito natural do processo, como uma bomba que explode ao tocar o solo, e antes disso ela era apenas um objeto volumoso guardado em um avião.
 
Queria dizer também que o vô terminou a quimioterapia, e depois do tratamento, recuperou o movimento do lado esquerdo do rosto. À tarde ele fica quieto encostado na parede de cimento da sala, joga uma porcaria para os passarinhos, e passa muito tempo ali, a vó diz baixinho que ele está pensando em você. Ele não deixa um dia sequer de dar banana às maritacas, e você não faz ideia de como aqueles bichinhos trazem felicidade e esperança a todos nós; a tia Meirinha terminou de pagar a casa, hoje não fala mais disso; e a tia Marly continua fazendo aquele bolo de fubá que cresce tanto que até cai da forma, a casca fica durinha e por dentro ficam aqueles buraquinhos que parecem ser feitos por formigas detalhistas. Você conhece muito bem o gosto de tudo isso.
 
Eu passei no mestrado, trabalho, pago minhas  contas, escrevo e não escuto mais Red Hot desde que você disse que era uma merda, acredito que em outubro eu vá ao show do Paul, sei que você ficaria orgulhoso em saber, além disso, não tem como ouvir while my guitar gently weeps e não pensar em você.
 
Depois de tudo que aconteceu, a vida, de fato, ficou menos colorida, sentimos sua falta todos os dias. E hoje apesar das coisas terem parado de fazer sentido a você, elas fazem muito mais sentido a mim. Depois de você, dou muito mais valor às pessoas, aos sons, à natureza e às relações. Por isso, obrigada, tio querido. Desejo sua paz.
 
De sua sobrinha,
 
Isabel.

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