A Amiga Genial

Por: Sônia Machiavelli

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Lenu e Lila, as protagonistas de A Amiga Genial, primeiro romance da tetralogia Série Napolitana, de Elena Ferrante, mostram forte parentesco espiritual com o  Emil Sinclair de Demian (Hermann Hesse); o David Copperfield  da narrativa homônima (Charles Dickens); o Toru Watanabe de Norwegian Wood (Haruki Murakami);o Tom Sawyer de As aventuras de Huckleberry Finn (Mark Twain); o Wilhelm Meisters de Os anos de aprendizagem (Goethe); e, claro,  o Holden Caulfield  de O apanhador no campo de centeio ( J.D.Sallinger).

São todas criaturas flagradas a trilhar o caminho complexo que vai da infância à juventude,  trazendo à baila o vasto conjunto de emoções que irrompem de forma incisiva  e atabalhoada, e com as quais  todo ser humano precisa  aprender a lidar. Estes romances, denominados pelos críticos  alemães “de formação”, expõem as mudanças físicas, morais, psicológicas, estéticas, políticas e sociais  operadas nos personagens na transição para a vida adulta, o que implica colocar em xeque sentimentos e valores.
 
A Amiga Genial  surpreende o leitor já no início do relato, quando  a narradora elenca os grupos familiares que movimentarão  a trama. Num procedimento curioso, a autora  apresenta, sob  título “Indice dos Personagens”, nove famílias (  Cerullo, Greco,  Carraci, Peluso,  Capuccio, Sarratore, Scanno, Solara, Spagnuolo) e cinco professores (o destaque será a professora Oliviero) sugerindo que  serão  muitas as crianças que circularão  pela periferia decadente da Nápoles dos anos 50, onde a vida é custosamente ganha em atividades como as de sapateiro, carpinteiro, pasteleiro, ferroviário, vendedor de frutas, porteiro, etc.
 
O enredo gira em torno da amizade de duas meninas, a estudiosa e determinada Lenu e a ousada e carismática Lila, que se destacam também por outras qualidades diferenciadas no bairro onde vivem todos os acima elencados. Ambas são figuras fortes que buscam redenção, cada uma à sua maneira.  É pelo olhar infantil e depois adolescente da primeira, quase sempre obcecado  pelo comportamento  inusitado da segunda, que o leitor vai juntando as peças que lhe permitem reconhecer o desenvolvimento das personalidades no  painel sócio- econômico desta região depauperada do sul italiano onde a violência se ergue como personagem do cotidiano. A relação das protagonistas, eixo da história, traz à baila profundas reflexões acerca de amizade, amor, inveja, ressentimento, dúvida, raiva, competição, disputa, sofrimento, amadurecimento. Não é por acaso que Elena Ferrante tenha escolhido para a página de rosto um poema do Fausto, onde Goethe diz:
 
“ Ó Senhor: Fica à vontade, e vem quando quiseres;/Nunca odiei os seres de tua casta./De todos os espíritos negadores/É o Maligno o que menos me agasta./Em pouco tempo já quer repouso inteiro,/É bom, por isso, mandar-lhe um companheiro/Que o espicaça e incita e como diabo atua.”
Lendo estes versos, o leitor estará preparado para compreender a complexidade do relacionamento das amigas e definir quem de fato é “a genial.” 
 
Aliás, impossível ler o romance sem se deixar afetar pela forma como as mulheres se veem e são vistas num contexto marcado pelo patriarcalismo. Por isso mesmo, se os anos de transformação das duas meninas em moças, e, por espelhamento, de  outras meninas e meninos da mesma faixa  etária vivendo no entorno delas,  nos autorizam um protocolo de leitura com base na formação, é preciso atentar para o fato de que essa categoria não segue  aqui  estritamente as balizas do gênero. Ao relatar o cotidiano das famílias  pobres, os desatinos causados pela falta de dinheiro, a ignorância dos pais em relação à necessidade de estudo para os filhos, o flagrante machismo, o onipresente bullying, o abominável comportamento em relação às crianças, Elena Ferrante desvela um estrato social onde são  singulares os  conceitos de moralidade, as normas éticas e estéticas, a compreensão do sujeito e da existência, e até mesmo o sentimento da maternidade. A psicanalista Elizabeth Badinter encontraria nesta obra elementos de sobra para ilustrar sua tese de que o amor materno é uma construção cultural: não há uma mãe sequer, entre as tantas deste romance, que expresse gesto afetuoso em relação aos filhos. O mito da mamma carinhosa é literalmente implodido.
 
Se a autora é mestra na arte da composição dos personagens, no jogo dos diálogos, na perspicácia psicológica, na descrição plástica da  Nápoles do período que vai do pós-guerra aos anos 60, seu maior mérito talvez resida na  linguagem que, como disse o crítico Antônio Marcos Pereira, da UFBA, “se inviabiliza, ao enviar ao leitor antes o acontecimento que o jeito de narrá-lo”. Essa qualidade que alguns chamam de “escrita simples” nada tem de fácil. Pelo contrário; pede talento e muito esforço ao autor  para chegar ao estágio onde o que se escreve ganha vida imediatamente no espírito de quem lê. 
 
Depois de A Amiga Genial, lançado em 2011, Elena Ferrante  publicou História do Novo Nome (2012); História de quem foge e de quem fica (2013); História da Menina Perdida(2014). O primeiro da tetralogia  se inicia quando a narradora, já idosa, tendo conhecimento do desaparecimento da amiga de infância, resolve contar o início da amizade de ambas até que no final do relato lança um gancho que é puro suspense e nos faz correr atrás do segundo livro, a ver o que continuou acontecendo naquelas vidas.
 
Ninguém conhece a face física de Elena Ferrante, um pseudônimo. Já houve quem dissesse ser ela um homem, o que foi desmentido. Considerada pela revista Time “uma das 100 pessoas mais influentes do planeta”, mantém cerrado anonimato sobre sua pessoa. Em rara entrevista, por e-mail, ao jornal O Globo, em janeiro de 2012, quando A Amiga Genial foi lançado em nosso país, ela disse:
 
“Não luto contra o autor, luto contra sua preponderância. Contra o fato de que sempre quem escreve vale mais do que a leitura da própria obra. Queria que os livros adquirissem uma centralidade absoluta e no que se refere ao  que realmente é devido aos autores (falo também dos clássicos), nos educássemos a encontrá-lo nas páginas. Quanto à individualidade, claro que conta. Mas não fica esquecido que o singular, todos nós, na nossa unidade/singularidade, somos o ponto de confluência dos outros, os nossos antepassados, os nossos contemporâneos. Somos inteligência acumulada nos grandes depósitos da tradição, e nossa individualidade se alimenta continuamente, permitindo e discordando, conformando-se e inovando.”
 
Mais ou menos o que, em alguns momentos, pensa em termos menos elaborados a adolescente Elena Greco, futura escritora, Lenu para os íntimos, evidente  alter ego de Elena Ferrante.  

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