Barriga cheia vida vazia e vice versa

Por: Isabel Fogaça

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Estava entrando no restaurante quando escutei o sussurro tímido: “Moça, paga uma marmita?” olhei para o lado procurando a voz masculina fina e fraquejada. Avistei o senhor usando roupas aparentemente molhadas e sujas por um liquido escuro; o cabelo até os ombros com pontas que miravam todas as direções, e a barba parecia estar crescendo há anos. 
 
Fiquei alguns  segundos parada no local e indaguei, mesmo escutando claramente sua pergunta: “O senhor falou comigo?” e ele continuou: “Estou com fome”. Permaneci ali alguns passos a sua frente, sem falar coisa alguma. Ele, então, virou as costas e eu respondi a tempo: “Pago, espere aí”. Entrei no restaurante, e logo expliquei a situação à balconista que me respondeu um pouco assustada: “E você vai pagar?”.
 
“Vou, coloque o que ele gosta de comer”, foi o que eu disse a ela. Peguei um prato para mim enquanto avistava a balconista fazer a marmita do senhor. Ela usou ovos, carne, arroz, feijão e maionese. Sentei ansiosa, e comecei a comer o meu prato. Fiquei pensando naquele homem e em quantas vezes esqueci minha marmita no trabalho, morando sozinha, e fui dormir sem comer, cheguei à conclusão que aquilo era muito pior, afinal, ele tinha apenas um cachorro magro e um papelão nos braços.
 
O homem queria encher a barriga e continuar vivendo, mas vivendo para que e para quem? A maioria das pessoas que moram nas ruas são  tratadas como desprezíveis porque não possuem ambições, querem continuar vivas e aquecidas até o dia seguinte. Porém, há beleza em viver um dia de cada vez.
 
Terminei meu prato, tirei uma nota amassada do bolso e paguei a balconista, eu queria sair e avistar o senhor comendo, gostaria de perguntar seu nome, e se a comida estava do jeito que ele gostava. Saí do restaurante, olhei para a esquerda e para a direita, não avistei nada mais que carros furiosos, o semáforo quebrado e passos apressados. Tudo muito rápido e frio, há algo muito errado com o mundo. 
 
Peguei o rumo de casa pensando naquela situação. Uma troca! Tropecei nessa ideia e luzes acenderam dentro de mim. Naquela tarde eu dei uma marmita a um mendigo, e ele me mostrou a possibilidade de viver um dia de cada vez.

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