neblina temporã

Por: Luiz Cruz de Oliveira

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O que existia eram deslumbramentos que formavam cordilheiras. Faz, todavia, tanto tempo que esqueci quase tudo. Uma das poucas lembranças que resistem é a da neblina que chegava sistematicamente no mês de maio.
 
Eu gostava tanto!
 
Alheio a todas as belezuras de janeiro, de dezembro que enfeitavam o Córrego das Pedras, levava piparotes da mãe porque me esquecia das obrigações miúdas, deixando as galinhas sem o milho, os porcos sem a lavagem.
 
As admoestações físicas não doíam, eram amortecidas pelo encantamento. E, embevecido, ficava admirando a montanha vestida de noiva, achando o sol maldoso quando ia rasgando a neblina, desnudando a Serra Saudade.
 
Faz tanto tempo!
 
Agora, a neblina perdeu os encantos de donzela, desnortearam-se os seus horários. Chega todas as manhãs, permanece indiferente ao sol e, ao invés de serras, camufla letras e palavras e períodos e pessoas. E não encontro dentro de mim calor para rasgar os véus acinzentados.
 
Abro todas as janelas, acendo todas as lâmpadas.
 
Em vão. 
 
Em algum lugar em mim cresce birra por esta neblina temporã.

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