Carta ao meu terapeuta

Por: Isabel Fogaça

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Querido terapeuta.
 
Quando nossos encontros se iniciaram em alguma parte de 2011 eu convivia com uma sensação desconfortável parecida com aquela de carregar um bocado de areia dentro do sapato sem meia. Afinal, toda vez que sacava uma nota da carteira para pagar a terapia, sentia que estava compensando um amigo para ouvir sobre a minha escuridão.
 
As semanas foram passando como tardes de inverno, e você não dizia uma palavra sequer sobre sua vida pessoal. A partir disso tomei a liberdade de criar uma família e uma rotina para você dentro dos meus pensamentos. Percebi então que não estava pagando alguém para ser meu amigo. Você estava ali para ser meu terapeuta.
 
Cotidianamente ouvia de meus amigos que eles tinham sido liberados da terapia; e ficava imaginando o dia em que eu me sentaria à sua frente e você diria com naturalidade: “Isabel, pode voltar para a casa”. Mas isso nunca aconteceu e, pelo contrário, suas palavras eram cheias de dúvidas que eu levava para o lar como uma menina atenta à tarefa da escola. Ficava presa aos seus questionamentos dias ou semanas, como se fossem cubos mágicos que eu tentava desvendar. Em contrapartida você disse algumas vezes: “Agora começamos um novo ciclo” e isso me despertava conforto, pois se o novo começava, a velha Isabel havia ficado para trás.
 
Depois de alguns anos de terapia, como forma de provocação, perguntei algumas vezes: “O que você pensa sobre?” E você demonstrava saídas estratégicas para não se posicionar. Eu também perguntei se poderia tirar os sapatos, ou deitar no divã como nos filmes, e você respondeu sorrindo que sim, apesar de eu nunca ter o feito. Conforme os dias foram passando comecei a te chamar de Carlos e não de “meu psicólogo”, até porque passei a sentir que seu profissionalismo era tão grande quanto o seu coração. Afinal, quando eu disse não poder mais pagar pela terapia você respondeu que se houvesse a vontade verdadeira de continuar, eu poderia pagar com meus textos até as coisas melhorarem.
 
Hoje eu não escrevo para pagar uma consulta, eu escrevo pela vontade verdadeira de agradecer todos os livros do consultório que me emprestou, mesmo quando não eram seus. Agradeço, também, por ter me ligado  quando meu tio faleceu e eu não conseguia nem mesmo me erguer da cama. Agradeço da vez que respondeu com muito cuidado minha mensagem apavorada de medo às três da manhã. E também pela vez em que disse: “Veja seu barco, ele não está mais desfragmentado”, como forma de acalmar meu coração ansioso. Através de seu auxílio eu passei a conhecer as  minhas limitações e respeitar meu próprio tempo, e sou muito grata porque, através disso, consigo escrever. Como você já sabe: isso é o que eu mais amo fazer.

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