Reflexões sobre o inverno

Por: Sônia Machiavelli

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Hoje, sábado 24, celebramos São João. A noite será fria e longa, vale prestar atenção:  a luz se extinguirá antes das 18 horas para retornar amanhã só por volta das 6. O fenômeno sinaliza para nós, que vivemos abaixo da linha do Equador, o começo do inverno. Tempo de jornadas introspectivas a estimular reflexões que aproximam vida humana e estações  do ano. A maior lição que estas nos ensinam é a possibilidade de recomeçar por mais difícil pareça; por piores se apresentem as circunstâncias; por maiores sejam as adversidades.
 
Fazemos parte da natureza, temos em nós a mesma matéria que a compõe. Mas estamos nos esquecendo, talvez pelo impacto da tecnologia, de que somos, nós e nosso planeta, poeira de estrelas.  Explicaram melhor essa relação os gregos,  em criações mitológicas de extraordinário engenho. Quando chega o inverno me lembro de uma delas, o episódio retomado de forma delicada por Ovídio (43 a C-18 d C) na sua obra prima, Metamorfoses. O rapto de Prosérpina, belo e profundo relato, influenciou a cultura ocidental  dos séculos seguintes de tal forma que é difícil falar do número e da excelência de  poemas, narrativas e telas surgidos sob sua  influência. Não restam  dúvidas, porém,  de que, na arte da escultura, ninguém igualou até hoje Bernini, que aos 23 anos retirou de imenso bloco de mármore branco o conjunto que se pode admirar na Galeria Borghese, em Roma. Nele vemos Plutão  segurando com força a delicada Prosérpina, tendo aos pés Cérbero, o cão de três cabeças que guardava as portas do Inferno.
 
Conta Ovídio que Porsérpina (na mitologia grega Perséfone), filha de Júpiter (Zeus) e Ceres (Deméter), colhia violetas e lírios brancos nos Elíseos quando Plutão (Hades) a viu e, apaixonando-se,  raptou-a. “ O raptor a colocou em seu carro e instou seus cavalos chamando a cada um por seu nome. Arremessou com  poderoso braço o cetro real e o afundou nas profundezas do abismo. A terra  machucada abriu caminho ao Tártaro”, escreve o romano. Ceres, sentindo falta da filha, passa a procurá-la por toda parte, e ao encontrar nas costas da Sicília o cinto usado pela jovem, entendeu que ela  fora raptada. Desesperada, “ a deusa das  plantas cultivadas  golpeou o peito com as mãos, amaldiçoou as terras e os lavradores, destroçou  arados e matou bois, fez com que as sementes se deteriorassem e as ervas recém-despontadas secassem, condenou todas as colheitas”, continua o narrador. Inutilmente a  ninfa Aretusa emergiu das águas e censurou  Ceres por  se enfurecer contra uma terra que sempre lhe tinha sido fiel e lhe disse que vira  Prosérpina nas margens do Estige, um dos rios do Inferno, triste e ainda assustada, mas reinando ao lado de Plutão. 
 
Ceres, perplexa e angustiada, ainda segundo Ovídio, “entrou  em sua carruagem e foi  na  direção das nuvens falar a Júpiter.” Sensibilizado pelo sofrimento da mãe, o deus-mor consentiu no resgate da filha, desde que ela não tivesse se alimentado durante a permanência no mundo das trevas. Era lei das Parcas que não poderia ser infringida. Mercúrio (Hermes) foi mandado como mensageiro para buscar Prosérpina; mas Plutão informou  que ela havia “espremido na boca o suco de sete grãos de romã”, fato que restringia sua liberdade. Um acordo foi então arranjado: metade do tempo a jovem passaria com  o  marido, nas entranhas do planeta;  outra metade com  a mãe, na superfície.  E assim, sempre que Prosérpina estava com  Ceres, a rainha das colheitas favorecia a terra que se cobria de flores e frutos, representações  de sua felicidade. Quando a filha ia para o subterrâneo, a mãe se entristecia e retirava os favores ofertados, de forma  que as flores murchavam, as folhas caíam, o vento gelava. Numa época em que os deuses eram muitos e a ciência nenhuma, os gregos  criavam histórias  poéticas  para explicar a alternância das estações.
 
Decorridos milênios, elas  continuam inspiradoras  e os  haicais que florescem em quantidade e qualidade, especialmente no Oriente, atestam isso. Cada ciclo que se fecha é porta que se abre, opondo luz/ escuridão; calor/frio; bonança/tempestade... Observar nosso entorno pode representar oportunidade de avaliar  as dicotomias reconhecíveis em toda experiência humana: alegria/tristeza;  êxtase/agonia; coragem/medo... E por fim, mas não por último, vida/ morte. É o contato com a morte que fortalece a importância da vida neste nosso planeta que é único no conjunto de tantos já conhecidos mas inviáveis para nos acolher na forma que nos singulariza.
 
Embaralhados na profusão de demandas, embrutecidos pelas exigências dos dias, cegos por narcisismos ridículos, espicaçados por orgulhos vãos, muitas vezes não atentamos como deveríamos para a essência da vida. Abrir os olhos a cada manhã é um milagre; deveríamos agradecer diariamente este instante. Especialmente no inverno, ao pensarmos que, como  grão de trigo, Prosérpina jaz aguardando o momento de germinar e vir à tona para alegrar não apenas Ceres, mas todos nós, humanos  para quem a esperança é primordial na construção cotidiana chamada existência. 
  
 

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