Para onde vão os gatos quando morrem?

Por: Sônia Machiavelli

355094
“Lee  livru  bá! Livru sira hanesan janela nabloke ba manduba // Leia livros! Os livros são janelas para o mundo!”
 
A primeira frase, grafada em tétum, e a outra, escrita na última flor do Lácio, ladeiam uma jovem com livro na mão e podem  ser  lidas em cartazes espalhados  nas escolas e repartições públicas do pobre Timor Leste, o mais novo país inserido no mapa geopolítico atualizado em 2002. Completou recentemente 14 anos, ocasião em que mais uma vez sua independência foi lembrada como doloroso processo iniciado em 1975, quando a Indonésia anexou a ilha, depois da queda de Salazar, e a resistência se impôs como único recurso.  Integrante da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, tem pequena extensão territorial - é menor que o nosso Sergipe. E fica a 14 mil km  de Portugal, que dominou a ilha desde o início de 1500, quando ali os exploradores chegaram para retirar a madeira de que falaria Camões nos Lusíadas. O sândalo, aquele que, segundo velho provérbio, “perfuma o machado que o fere”.  
 
Enquanto  comerciantes orientavam a derrubada das árvores, missionários se estabeleciam a fim de difundir  o catolicismo e ensinar a língua portuguesa. Ao longo dos séculos, a sanha avassaladora dos que buscavam o lucro  fez  fenecer  o sândalo . Mas a língua portuguesa e a religião católica vicejaram. Católicos são a maioria da população timorense;  quanto aos falantes do português, convivem com formas de expressão muito antigas, transmitidas oralmente  nos 16 idiomas vivos. Um deles o tétum, acima  mencionado e considerado a língua franca do Timor. É dos poucos  que possui  textos escritos, aparecendo muitas vezes em formato bilíngue, em parceria com português ou inglês.
 
A literatura e a política convergem em muitos momentos da história do Timor-Leste. O ex-primeiro ministro Ramos Horta começou sua carreira como jornalista, enquanto o grande líder revolucionário Xanana Gusmão é considerado o poeta número um do país. Mas a nação ainda não possui uma historiografia literária sistematizada. Só  agora ela está sendo erguida por escritores timorenses que escrevem  em  tétum na ilha  ou em português nos países onde escolheram viver, como Portugal e Austrália: são os  chamados “timorenses da diáspora”. No livro Timor Leste- Este País Quer Ser Livre,  organizado por Sílvio Santana e publicado pela Editora Martin Claret, encontram-se poemas, contos e crônicas de alguns dos mais representativos escritores timorenses: Fernando Sylvan, Jorge Lauten, Francisco Borja da Costa, Jorge Barros Duarte, João Aparício, Henrique Borges, Fitun Fuik, Afonso Busa Metan, Ruy Cinatti. E Luís Cardoso, primeiro autor timorense a escrever em língua portuguesa, de quem acabo de ler o romance Para onde vão 
os gatos quando morrem? , publicado neste 2017 pela Sextante.  Antes  escreveu Crônica de uma travessia (1997), Olhos de Coruja Olhos de Gato Bravo (2002), A Última Morte do Coronel Santiago(2003) , Réquiem Para o Navegador Solitário (2007) e O Ano em que Pigafetta completou a circum-navegação(2010). 
 
Em entrevista concedida ao jornal O Globo, há dez anos, na sua segunda visita ao Brasil, Luís Cardoso falou ao repórter Ramon Mello que o Timor é “uma manta  de retalhos de vários grupos etnolinguísticos e quase se pode afirmar que atravessamos de nação em nação por todo o  território; tento descrever  em meus livros um pouco do Timor real, e não somente aquele que os jornais mostraram, especialmente  no período da resistência.”
 
Dizem os críticos que no universo da ficção timorense a obra deste escritor singulariza-se por revelar a construção gradual de um imaginário lírico, em constante diálogo com várias heranças que se cruzam. Também no romance cujo título foi tomado como epígrafe a estes comentários,  o substrato são as  questões de identidade (nacional, cultural, linguística e religiosa) colocadas no espaço timorense, no tempo passado e no presente, na construção possível de pontes com outras realidades próximas e distantes. A busca  do protagonista  Ernesto pela  mãe que nunca viu, e o convívio  com um pai opressor e  cruel, esbarram  em obstáculos  tangíveis ou apenas imaginados, e em outros personagens simbólicos. Como  a jovem  Isabel, que chega  à ilha de  Ataúro  para cuidar do garoto, ou o enigmático Silêncio, vigilante e  onipresente, “seco, rijo e magro como a ilha”. 
 
A trajetória de todos coincide com o destino do próprio povo  timorense, ilhado num  pedaço de terra inóspito: “Assim eram as pessoas de Ataúro. Conservavam-se dignas com o mínimo, tiravam da terra o que a terra dava e, quando não podiam, iam buscá-lo ao mar para se manterem vivos. Apesar de todas as carências, nunca se renderam perante a fatalidade da natureza. A penúria empederniu os corpos, mas nem por  isso os corações. Eram solidários com as pessoas que para lá foram mandadas. Muitos foram os desterrados. Compartilharam os seus parcos haveres e nalguns  casos ofereceram suas esteiras para que não se sentissem sós.”  Os desterrados ao qual o narrador se refere são os “portugueses que se opuseram ao regime ditatorial de Salazar. Depois, os timorenses acusados de terem colaborado com os japoneses durante a ocupação. Mais tarde os indonésios que fizeram desta ilha um campo de concentração para os nacionalistas.” Ataúro é uma ilhota perdida no mar, ao norte da pequena Timor. 
 
Luis Cardoso inova na estrutura ao contar sua história em vinte  capítulos, todos escritos em versículos;  e  reafirma  o estilo, ao misturar ao português expressões em tétum  que são explicadas ao leitor no glossário ao final da obra. Essa recriação do mundo pessoal, um Gênesis individual,  privilegia o contexto timorense em termos físicos como a paisagem, a geografia, a fauna, a flora; e culturais como  os indivíduos, as línguas, os costumes, as tradições. E faz  convergir num espaço minúsculo multifacetadas identidades a que se agregam miscigenações várias.
 
No prefácio, Frei Bento Domingues diz que “o romance de Luis Cardoso é escrito como uma parábola bíblica. Acompanha-o A Criação do Mundo, de Miguel Torga, outra parábola bíblica quase laicizada.” Já no posfácio, o professor Carlos Reis explica que “não é apenas a sua  biografia e a sua identidade que o narrador resgata: a História da nação independente, por entre conflitos e sofrimentos bem conhecidos, perpassa igualmente na ficção autobiográfica. O que desse modo fica confirmado é a pertinência do texto ficcional como instância de reconfiguração da História, em termos que não estão ao alcance dos historiadores “oficiais” e formalmente assumidos. Porque sempre será intrínseca às ficções que lemos uma verdade outra que só nelas atingimos.”
 
A mim, impressiona a capacidade do autor de  ir tecendo em processo gradual  as singularidades locais e individuais, as quais  reenquadra e  questiona em escala global e universal. Sua grandeza reside exatamente aí, na  condição de falar do mundo e do ser humano ao pincelar com cores sóbrias a ilha e com camadas de tinta intensa os seres nela ancorados.  Ao leitor restará  ir desvelando aos pouco a história do protagonista e seu entorno, da mesma forma que lhe caberá  reunir as peças do quebra-cabeça que responde à pergunta obsessiva, retomada em quase todos os capítulos: “Para onde vão os gatos quando morrem?”
 

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras