Perfis 2017

Por: Lúcia Helena Maniglia Brigagão

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Eu, Edina. Nasci em 1943 na Serra da Canastra em Minas Gerais,  quinta de família de oito filhos. De todos,  sempre fui a mais decidida e determinada sobre o que queria da vida.  Meu pai sempre foi homem esforçado e batalhador. Morávamos em fazenda e ele, além de cuidar das plantações e animais, ainda conseguia tempo para cortar os cabelos dos funcionários. Eu observava e admirava tudo o que acontecia ao meu redor.  Ousada, certo dia  comecei eu mesma a cortar os cabelos dos filhos daqueles funcionários. O motivo da minha admiração por meu pai e sua versatilidade formataram a semente  que,  mais tarde ao germinar,  se tornaria minha profissão. 
 
Mudamo-nos para Franca, estado de São Paulo, quando eu tinha 14 anos. Comecei a freqüentar escola e, por ser bastante comunicativa, logo consegui formar meu círculo de amizades. Foi quando comecei a arrumar os cabelos de minhas colegas. Aos 16 anos comecei a trabalhar profissionalmente no salão de Luíza Marangoni, cabeleira consagrada da cidade de Franca. Pessoa esforçada, competente e  generosa, Luíza me orientou e estimulou meu crescimento profissional. Trabalhei para ela alguns anos.  Depois decidi abrir meu próprio salão. Foi o  início de minha carreira solo.  Aluguei imóvel e comecei com todo entusiasmo da juventude. Surpreendia-me o aumento cotidiano das clientes, o que fazia meu estabelecimento ficar pequeno, nem bem inaugurado.  
 
Depois de ver a situação se repetir por três ou quatro vezes, decidi comprar meu terreno e iniciar a construção de salão maior e mais aconchegante para as clientes que, para minha surpresa e prazer, aumentavam sempre.  Nesse período foi difícil conciliar trabalho, estudo e fiscalizar construção. Todavia percebi  que se há muitas pedras no caminho para serem retiradas, ao mesmo tempo temos grandes ganhos. Aprendi, sobretudo, que vitórias, alegrias, tristezas e decepções contribuem igualmente para nosso crescimento mental e profissional. Quando aconteciam grandes eventos na cidade – e durante anos eles foram freqüentes - eu costumava trabalhar muito, e ia muito além do horário convencional. Não raro ultrapassava quinze horas de efetiva atividade, por dia. Nunca reclamei: faço o que gosto, foi e será um  grande prazer pra mim trabalhar, e minha profissão sempre esteve em primeiro lugar no meu cotidiano. 
 
Com 24 anos trabalhava e administrava meu salão em prédio próprio que já contava com mais de 15 funcionárias. Como profissional eu gerava empregos e eu dava oportunidade para que as funcionárias crescessem. Pela prática, e por ter percorrido passo a passo a trilha da minha profissão, sou capaz de reconhecer habilidades e talentos que as pessoas que trabalham comigo têm latentes e tentar estimulá-las para que possam desenvolvê-las. Reconheço ser muito exigente, o que justifico: meu trabalho pede esse atributo. Quando me acusam de  ser brava, assumo e esclareço que ser assim me fez crescer , bem como ajudou a crescer quem estava trabalhando comigo.  Cobrava e cobro muito de mim e de todos ao meu redor, pois como profissional, também fui e sou muito cobrada pelos meus clientes.  Fiz cursos no Brasil e no exterior com os maiores nomes do setor, sempre com o objetivo de melhorar desempenho, crescer profissionalmente, conhecer técnicas, aperfeiçoar conhecimentos e adquirir novidades. Buscava qualidade e excelência para atender clientes mas, principalmente, repassar para minha equipe. A fim de atender com mais eficiência, preparei duas equipes e abri, como anexo do novo salão, diversificada loja de cosméticos.  Os clientes dariam continuidade em casa ao tratamento iniciado ali. Outro benefício, eu forneceria produtos especiais para outros profissionais.  Enquanto uma equipe atendia em um estabelecimento, eu atendia em outro, com outra equipe. Nessa época eu me orgulhava do sucesso profissional, os dois salões funcionavam muito bem, tinha comigo duas valorosas turmas de auxiliares. 
 
Aos 56 anos, voltando para casa, sofri grave e quase fatal acidente automobilístico. Bastante ferida, removeram-me para São Paulo. Precisaria colocar prótese no braço, apresentava seqüelas. O acidente provocou reviravoltas pessoais e profissionais  na minha vida: acéfala, a loja, antes próspera, minguou. Os salões ficaram sem liderança, porque poucos apostavam na minha recuperação, quase todos temiam que não voltasse a trabalhar.  Surpreendentemente, dois meses depois me recuperava e voltava ao trabalho. Era tempo de reconstruir. 
 
Olho para trás,  vejo as tantas pessoas que passaram pela minha vida, que trabalham ou trabalharam comigo, entre elas as que hoje têm seu próprio negócio, que começaram como pequenas sementes que reguei até germinar e crescer, como eu mesma.  Tenho muito orgulho das minhas conquistas.  Permaneço no mercado, depois de quase cinco décadas, atuo e atendo com o mesmo amor e dedicação de quando comecei. Meu trabalho é minha vida.
 
(Perfis 2017 - Histórias de vidas francanas – Edina Ferreira, Cabeleireira) 

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