JABUTICABAS

Por: Angela Gasparetto

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Sempre amei jabuticabas. 
 
Quando criança, as mesmas eram nosso presente mais sofisticado. 
 
Embora todas  as árvores frutíferas que tínhamos no quintal, não sei por que não tínhamos jabuticabas.
 
Quem as tinha era minha madrinha Jandira, que morava na cidade, próxima à fazenda onde vivíamos.
 
Às vezes em uma tarde ensolarada, do nada, minha mãe aparecia na sala com uma bacia repleta das frutinhas pretas brilhantes, às quais havia ganhado de uma vizinha, um amigo, ou mesmo da minha madrinha.
 
Então eu, entre pulos e gritos de alegria, era a primeira a correr para experimentar. 
 
No afã de chupá-las, engolia diversos caroços que minha mãe ia advertindo para não fazer...
 
Além destas tardes de júbilo, inúmeras vezes quando visitávamos minha madrinha na cidade, recordo-me dela vindo sorridente com o seu alvo avental cheio de jabuticabas, naquela oferta espartana e singela, própria das almas caridosas. 
 
As jabuticabas me perseguiam como um sonho inalcançável. Quem as tinha, eram milionário, pensava eu. Não no sentindo de milionários cheios de dinheiro, mas sim desta riqueza acima dos valores pecuniários, mas repleta de recompensas puras e felicidades gratuitas. 
 
Pois isto é o que uma jabuticaba pode  proporcionar felicidades gratuitas. 
 
Da volta da escola, já morando em Franca, vinha namorando longamente as jabuticabeiras carregadas dos vizinhos e seguia meu caminho degustando intimamente o sabor da fruta tão almejada.
 
Descobri que jabuticabas na cidade eram novidade, muito mais que na roça. Quando meu pai as trazia, meu coração se renovava com aquele sentimento de alegrias lúdicas e de gratidão ingênua.
 
Como todos sabem que amo jabuticabas, vira e mexe eu as ganho, ou vira e mexe eu as compro, já que na sua safra são facilmente encontradas nos bons varejões de hoje em dia.
 
Assim, vou andando distraída durante as compras, e, de repente, à distância, eu as diviso e mesmo que ocasionalmente pequenas e retraídas, sinto a mesma emoção semelhante à contemplar o mais belo e caro brilhante. Jabuticabas, mais que o símbolo da minha infância, são diamantes negros das árvores frutíferas brasileiras. 
 
Mais do que comprar um apartamento próprio, sempre alimentei ter um pé de jabuticaba no quintal. Ultimamente, já na maturidade, quando queremos viver mais languidamente e ao encontro de nossos prazeres mais prosaicos, tenho feito planos para isto. 
 
Almejo, arquiteto...
 
Neste meu plano, estarei eu na minha nova casa, plantando uma muda de jabuticabeira já enxertada _ me disseram que assim dá certo _, e a cada ano estarei vendo-a crescer, forte, altiva e principalmente dando frutos. 
 
Frutos que além de saborosos, serão principalmente o atestado de sabor de uma vida, onde os princípios de amizade e generosidade eram externados com uma simples bacia de jabuticabas, presentes escolhidos com amor para as crianças livres e sonhadoras que éramos, naquele rincão de Minas Gerais.  
 
Minhas jabuticabas também poderão ser presentes de amor e gratidão pelo que sempre significaram na minha vida.

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