O avaliador de terras

Por: Maria Rita Liporoni Toledo

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Não havia, em toda região, nome mais conhecido para dar valor às terras que se pretendiam vender. Doutor Onofre, que nenhuma titulação possuía mas por ser muito rico era assim chamado, munido de uma desonestidade intrínseca e uma ganância infinita avaliava as fazendas, sítios, chácaras por um preço ínfimo e, depois, na surdina, as comprava por meio de um intermediário. As melhores retinha para si e as de pouco valor as assumia como suas e as revendia. Ninguém reclamava porque ele não aparecia como novo proprietário das grandes fazendas. Mesmo assim, vivia sobressaltado, desconfiado, com receio de alguma retaliação.
 
Certa vez, apareceu um agricultor, interessado em comprar uma terrinha, quando avisaram ao Doutor que ele tinha um histórico de violência, em outros lugares. A ideia de lucro era maior que a de cautela. Vendeu-lhe, pois, umas terras muito ruins, numa serra, onde o pasto muito ralo era entrecortado por pedras. Apesar de a casa estar muito acabada, o comprador animou-se com uma linda mina d’água que deslizava em direção a uma pequena represa. Feito o negócio, ele reservou um pouco do dinheiro para comprar umas vaquinhas. Mudando-se para lá, plantou umas covas de mandioca, uns pés de milho, uma horta de couve e um feijãozinho para o gasto. De uma das vacas tirava o leite para a família e deixava o restante para o bezerro, como é o costume na zona rural.
 
Depois de pouco tempo, encontrou esta vaca morta, na beira da represa, com sobras de erva daninha na boca. Uma terra que contém ervas que matam o gado é imprestável.
 
Enfurecido, de posse de sua enxada, removeu tudo o que havia plantado. Armou-se do seu revólver e de uma caixa de balas, desceu a serra, na sua camionete bem velha, levantando poeira. Chegando à cidade, avistou o Doutor Onofre e seu filho, sentados num banco, na praça principal. Não falou nada, apenas atirou mortalmente nos dois, e fugiu.
 
Corriam notícias de que ele e a família tinham arrendado um sítio, em outro estado, bem longe dali.

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