O voo do Seu Nen- 2.

Por: Isabel Fogaça

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Saturnino Justino do Amaral ou apenas o “Nen da Banda” era como, carinhosamente, o pai dos meus professores de capoeira era chamado pelos seus conhecidos. Um senhor de estatura baixa, e de pele dourada pelo o sol. Na perna esquerda levava um curativo médico feito de gaze e fita adesiva. Andava com certa dificuldade e cobria a perna com a calça social. Deixava evidente apenas parte do pé que, por usar sandálias, exibia o curativo. No corpo roupas pálidas e confortáveis e na cabeça um boné de letreiro curto que minha vista falha tinha dificuldades para ler.
 
Seu Nen estava presente em todos os meus batizados de capoeira, desde minha infância. Eu olhava em volta e via vários homens de cordas coloridas e calças surradas; mulheres de cabelo despenteado com suas crianças de colo, acompanhando seus maridos capoeiristas; e em algum cantinho daquele evento estava Seu Nen, tímido, porém sorridente, sentado com a perna cruzada em uma cadeira de plástico vendo seus filhos na capoeira.
 
Assisti esta mesma cena se repetir por uma década. No final de cada batizado meus professores pegavam o microfone e agradeciam a todos que faziam aquele evento acontecer, desde doadores de frutas, pais de alunos, até à prefeitura municipal. Porém, o agradecimento mais especial era destinado ao pai, o Seu Nen. O senhor descruzava as pernas e levantava devagar da cadeira, andava até o centro da roda, e enfim alguém cantava alguma cantiga emocionada. Seu Nen evidenciava o orgulho de estar ali, e em troca recebia beijos e abraços sinceros dos filhos.
 
Esta cena sempre me tocou de uma forma profunda e verdadeira, causando sintomas físicos, como o de ter um passarinho agitado batendo asas dentro do meu coração, ou a sensação de vagalumes inquietos procurando uma lamparina dentro de meu estômago. Nunca chorei, sempre guardei as lágrimas para poder assistir melhor.
 
No dia 26 de agosto de 2015 Seu Nen estava muito doente, e faleceu tão miudinho que parecia o passarinho que morava dentro do meu coração, porém menos agitado. Muita coisa ficou diferente deste tempo para cá: nos batizados de capoeira, por exemplo, há um vácuo que por nada pode ser mudado. Meus professores ainda cantam músicas bonitas que hoje demonstram a grande dor da saudade, soa em meus ouvidos como um uivo firme e lancinante de um lobo ermo na montanha mais alta.
 
Gosto de pensar que Seu Nen teve a perna curada e por isso alçou voo. Não são necessárias cadeiras humildes de plástico porque hoje ele vê tudo lá de cima, de camarote.

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