Travessias

Por: Angela Gasparetto

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Acima de mim começo a ouvir o longínquo barulho das monções que trazem o vento das chuvas de inverno, das águas de uma vida inteira...
 
E na calma da manhã, afundo os meus pés descalços na grama molhada pelo orvalho e sinto a brisa matutina no rosto e o perfume doce das flores na travessia. 
 
Quando olho para trás, tenho a convicção de que corri quando era para caminhar, capitulei quando era para negociar, errei quando tinha que acertar e fugi quando a fuga era me salvar. 
 
Agora distante destes labirintos, percebo que fiz o melhor que me pareceu e sobrevivi, retomando novamente esta caminhada, arando canteiros, plantando flores, regando a minha alma.
 
Nesta travessia imposta, tentei segurar o tempo, mas o mesmo escapava-me como o vento morno em noites tempestuosas de verão.
 
E na imensidão do vagar, minha alma cantava como um pássaro que, impedido de voar, se redescobria absurdamente livre com seu canto e alçava voos rasantes acima da sua imposta prisão.
 
Um inclemente relógio  batia as horas do tempo da espera, pois em todos os caminhos que andei, muitas vivências angariei, mas somente as trilhas do passado, no meu coração eu guardei.
 
Porque tenho esta alma que mora eternamente em longínquas estradas de terra; um coração que viceja nas árvores centenárias do caminho e um ser que se renova nesta atmosfera de luz e cor, de brisa em flor...
 
Então, que parados um minuto no espaço, possamos de vez enquanto ouvir e sentir o silêncio da floresta, as folhas quebrando sob os nossos pés, os raios do sol nascente, o perfume das árvores molhadas de orvalho e a música sagrada da natureza. Absorver esta paz gratuita. 
 
E agora pressinto flores na alma, luzes na janela e possibilidades no caminho.
 
Só levo comigo a alma leve, o coração complacente e toda a fluidez de uma liberdade, mesmo que tardia.
 
No crepúsculo de todos os dias, sinto o vento frio do outono que se vai e minha mente vagueia perdida nesta simbiose feita de loquazes silêncios e ternura compartilhada com a vida que agora me é permitida.
 
O sol brinca no fim do horizonte e a alegria corre solta em minhas veias. Amanhã será um novo e insondável dia...!

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