Visita a um túmulo

Por: Maria Luiza Salomão

357122
Estudando Clarice Lispector. Sempre quis, agora o pretexto e a obrigação. Um TCC, a dar laço final ao curso que me meu muito prazer de fazer: pós-graduação – lato senso – em Línguas, na FACEF. 
 
Estudar Clarice me dá prazer, mas, confesso, é difícil embrenhar, assim, internada, na escrita clariciana. Estou impregnada. Impressionada. Uma palavra em inglês para me traduzir: overwhelmed. Particípios passados em português não me dão a exata medida: naufragada, imergida, soçobrada.  Perdida? Não, perdida não, apenas cansada de nadar...não tem fim a travessia... 
 
Era leitora de Clarice de um outro modo: eu lia, relia, trelia, quadrilia a mesma crônica, o mesmo romance, o mesmo conto ... Agora estou lendo quantidades: crônicas, cartas para pessoas íntimas, descobrindo seus amigos, seus hábitos comezinhos, vaidades de gente humana, ânsias mais sofisticadas, sua filosofia e, difícil demais, suas origens.
 
Ah, as origens de um escritor são sempre difíceis demais de conhecer. Entramos em um labirinto úmido, de pouca oxigenação, junto com bichos invisíveis (que todos temos), que rastejam, que enriquecem a terra, que produzem húmus naturais. 
 
Toda vida humana é assim: toda vida humana é um romance: tem herói, tem heroína: tem vilão, vilã: tem enredo: tragédia, comédia: tem final: feliz ou infeliz, final que recomeça, final que acaba nos meios. Mas, escritor tem epopeias, tem umas coragens!
 
Veio essa vontade, no meio do caminho das leituras (nem me atrevo a escrever o início do meu projeto de TCC, ainda não!), de visitar o túmulo de Clarice Lispector. Tenho o endereço do cemitério, o número do túmulo, a fila para encontrá-lo. Só falta coragem. Justamente eu, que não visito, nem visitei túmulo de ninguém íntimo, nem do meu pai (já que ele se enterrou em mim e já me é). 
 
 
O que quero lá? Sei lá, só indo...vou... agora mesmo. Antes, preciso de mal traçadas linhas, como quem toma fôlego. Clarice não gostava de saber que ia morrer, nunca assimilou a morte da mãe. Ela se sentia culpada, por não ter conseguido, superstição da época, “salvar” a própria mãe da morte, já que (como ela foi criada) o povo acreditava que uma doença poderia ser curada com a gravidez (vida vencendo a morte?). 
 
Clarice foi para o hospital, de táxi, sabendo que era a sua última viagem, mas foi contando histórias (como contava para a mãe doente, terminal, com nove anos). Para o taxista, para a amiga, para o filho, para ela mesma se distrair da doença, do seu medo de morrer? Planejava, ao contar histórias, a última viagem para Paris, trajeto, etc. e tal, com entusiasmo. Até o taxista começou a comprar a viagem de Clarice; ela convidou o taxista a ir, e, para a corrida até o hospital, que custou vinte cruzeiros, pagou logo duzentos! 
 
Que vou fazer no seu túmulo, meu Deus!?! Lerei pedacinho de Um Sopro de Vida, uma página, ao acaso.  Falarei: você não salvou sua mãe, não se salvou da morte, mas sua obra é danada de eterna, Clarice! Se salvou você enquanto viveu, valeu, ou não valeu???? 
 
- Bobeira, né?  Mas vou. Ou não vou. Tal vez pode ser...era uma vez...
 
BOM, eternidade é agora: sempre ou nunca mais! Fui...
 

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras