A segunda temporada dos ipês

Por: Sônia Machiavelli

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Amiga de anos, colega de magistério, parceira em  Nossas Letras, Zelita Verzola diz algo em sua crônica deste sábado em que também me pego pensando, quando nosso inverno tropical  surpreende olhos e alma com os ipês  em flor. Como Zelita, já escrevi tantas vezes sobre eles que me sinto por demais reincidente. Mas parece que  os ciclos que levam a reflexões não deixam que nos calemos. Então arriscamos  novas variações sobre o mesmo tema.
 
Começo pelo  ipê-bola a quem saúdo por breves dias quando saio de casa rumo ao trabalho. Ele  não seduz apenas a mim, observo interessada. Ao estacionar no acostamento da Avenida São Vicente na semana passada para fotografá-lo, vi parar atrás uma camioneta da qual desceu um jovem com celular em punho. Diante da coincidência de propósitos, nos sorrimos e ele falou: “- Quem resiste?” 
 
Ninguém resiste; estava mesmo um escândalo o ipê rosa recortado contra o azul do céu francano em manhã de muita luz. Minutos depois, de volta ao carro, liguei no programa “Hora da Verdade”, da Rádio Difusora, e ouvi os jornalistas Leandro Vaz e Correa Neves Junior comentando sobre as  incontáveis árvores que coloriam a paisagem citadina e chamavam a atenção dos ouvintes que se manifestavam. Ah, se só pudéssemos noticiar o  belo, que maravilha viver... Mas, como dizem os sábios, em tudo há de se dar graças; e se não consigo (ainda) agradecer pelas pedras do caminho que me ensinam o contorno em vez da remoção, sou muito grata pela beleza que se oferece gratuita. 
 
Então me pus a pensar  a quem deveria dizer “obrigada!” por este espetáculo efêmero que tanto me comove. Ao Criador, diriam os religiosos. À Natureza, falariam os botânicos. À Arte, comentariam os paisagistas que imaginam árvores floridas quando elas são apenas pontinhos  coloridos no croquis. E por aí fui devaneando, passando à questão do tempo. Como vivo em Franca desde meu primeiro ano, sei que essas árvores espetaculares eram raras na área urbana até os anos 80. Minha memória me remeteu à administração Maurício Sandoval Ribeiro- estarei equivocada? Ou teria sido Ary Balieiro o idealizador do plantio em larga escala? Olga Toledo? Ah, este é um nome que tem de ser sempre reverenciado, porque seu olhar de artista e seu saber sobre o reino vegetal conferiram muita beleza aos nossos espaços públicos. De uma coisa tenho certeza: não terá partido de alma pequena e rude esta ideia magnífica e sensível que se concretiza em espetáculo fascinante mas de curta duração: apenas quinze dias e lá se vai para o chão todo 
o esplendor. 
 
Entretanto, para os que lamentam as flores que já murcharam e caíram, um alento: a segunda temporada dos ipês está chegando. Se a  primeira colocou no palco a cor rosa e suas nuances, a segunda será dominada pelo amarelo, que já faz sua entrada em cena. Há quatro  anos, todos os dias, passo por um pé de ipê  plantado numa calçada, na esquina das ruas Ângelo Melani e Ângela Rosa. No meu trajeto, vejo-o enfolhado em verde escuro de setembro a março; perdendo algumas folhas em abril;  com galhos completamente desnudos em junho. Nas últimas semanas, parecia uma árvore morta.  E eis que na segunda-feira, parando obrigatoriamente no cruzamento e olhando para ele, divisei uma flor mínima, no peculiar amarelo, como se me anunciasse: “já, já estarei com minha roupa de gala”. 
Como esta, outra, bem mais nova, plantada há pouco tempo por meus vizinhos, começou a dar o ar de sua graça. Quando vi o jardineiro transplantando a muda, pensei no longo tempo demandado até que florisse. Ainda me perguntei: “será que verei suas flores?” Não só as estou vendo como as fotografo e me permito pensar que não pertencem apenas a quem as cultiva em sua propriedade; são também daqueles que delas se apropriam pelo olhar, que não tem cerca.
 
Se a temporada dos ipês termina agora, com os amarelos? Não! A terceira e última temporada é talvez a mais impactante, porque ipês brancos duram menos que os outros,  mas o suficiente para permanecerem vivos na memória, se você tiver a sorte de vê-los: são os mais preciosos, por mais raros.
 
E assim, inverno após inverno, os ipês farão sua rentrée nas praças, avenidas e calçadas. Primeiro os de tons róseos, depois os amarelos, por fim os brancos. Sempre nesta ordem, obedecendo ao princípio bíblico segundo o qual  “tudo tem seu tempo”’, e percutindo a  voz poética de Carlos Drummond de Andrade, para quem  “as coisas findas/ muito mais que  lindas/ estas ficarão.”

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