O QUE O BICHO NÃO COME

Por: Isabel Fogaça

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“Tia, lá no céu tem comida pra ele?” Foi o que S. me perguntou naquela tarde. A menina tem 13 anos, e é minha aluna na APAE. Hiperativa, tem traços de autismo, e por isso possui uma vasta lista de curiosidades, como: “Do que é feita a salsicha?”, “Qual cor é o osso dentro da nossa pele?”, “O que é o negócio branco dentro da mortadela?”, “Por que a sapatilha sem meia tem cheiro forte?”. Mas, desta vez, ela perguntava sobre a morte prematura do irmão que sofria de esclerose lateral amiotrófica.
 
Senti um desgaste emocional intenso. Não sabia se vinha da baixa ingestão de carboidratos naquele dia, afinal estava acordada desde as quatro da manhã, já passara o horário do almoço, e eu havia comido apenas algumas batatas frias com três rodelas de pepino. Não sabia se o que eu sentia era causa do cansaço, pois havia viajado à beça para chegar até à escola, o estômago estava embrulhado como se eu tivesse engolido uma bola de papel. Desconhecia se aquilo tudo era causa do impacto da pergunta da menina, ou se eram todas essas coisas juntas.
 
“S., quando morremos não precisamos mais comer!” Foi o que eu respondi de maneira imediata. 
 
A menina parou de folhear a cartilha, fixou os olhos em mim, e eu fixei os meus olhos nela. Não dissemos nada de início; ela então encostou suavemente o dedo em minha acne - já que o meu rosto estava próximo ao dela - e soltou feito explosão: “Quando a gente morre, o bicho come?!”.
 
“Come, S.” Foi o que respondi de maneira incisiva.
 
E ela continuou: “Mas qual é o tamanho do bicho? Ele é grande? Ele é pequeno? Ele é branco?”.
 
Enquanto formulava suas perguntas, a menina passava os olhos em volta da classe de um modo que quase dava para enxergar a construção do bicho comedor de carniça, dentro de sua cabeça.
 
“S., não precisa ter medo. Onde seu irmão está agora, ele não tem fome, é como se estivesse dormindo depois do almoço. O bichinho que come a carne é bem pequenininho, tanto que nem dá pra gente ver, ele não faz mal, só limpa a sujeira para que coisas bonitas possam nascer na terra”.
 
“Flor, árvore, alface, passarinho, cobra e porco” continuou a aluna ao lado recitando tudo que havíamos aprendido sobre zona rural na aula anterior de geografia.
 
Apesar da explicação da amiga e da professora, S. continuou com um olhar desconfiado, e disse suas últimas palavras naquela aula: “Ele descansou, sofreu demais. Sofreu demais. Sofreu demais...” Conseguia ver que ela tinha escutado o conformismo exaustivo de alguém próximo da família, mas não quis opinar sobre, apenas concordei: “Descansou, coração”. 
 
E assim S. guardou o seu material, eu apaguei a lousa, a aluna ao lado fechou o caderno de geografia. Peguei minha carona de volta para a casa, e o rádio estava sintonizado em uma estação qualquer que não consegui identificar por causa da fome, do cansaço e das perguntas de S. Prometi para mim mesma ser sempre sincera, mas às vezes é preciso ignorar o que se pensa para confortar, era o que morava em meus pensamentos.
 
Dizem que o que é do homem o bicho não come. S. terá pra sempre as vivências com o irmão dentro da cabeça cheia de dúvidas, e eu guardarei tudo que aprendo com meus alunos, dentro de minha cabeça – também -  cheia de dúvidas.

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