O MENINO QUE ASSOBIA

Por: Isabel Fogaça

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O menino que assobia não fala muita coisa, em conta da timidez, ele prefere ouvir. O menino que assobia parece um filhote após a amamentação e dorme enquanto o caos passa a sua volta. Ao seu lado direito a mulher chora e grita pela morte do filho e a tia ri exaustivamente porque se lembra de um furto de anéis. Ao seu lado esquerdo o homem faz piadas de cunho malicioso. Tudo é exaustivo e turbulento, e quando o silencio enfim é instaurado, ouve-se um canto miúdo como de um pássaro no ninho, é o assobio do menino. 
 
Às vezes, o menino que assobia quebra o silencio respondendo às questões feitas pela televisão: “a resposta certa é a D”, diz numa voz doce e mansinha depois da pergunta feita pelo apresentador do sábado à tarde. O menino gosta de coisa da terra, come mandioca e chupa cana, ele ama o vento entrando pela janela da casa, e o telhado rústico feito de madeira; mas há que ficar bem quietinho para perceber tudo isso, porque o menino fala baixinho. E quando o mundo fica em silêncio, o menino dirige seu carro, com o pendrive que toca alguma música que não vem da América Latina, ele gosta da batida do soul, coisa que fica bonita no assobio.
 
O menino às vezes parece uma criança descobrindo o mundo, olha curioso para as coisas da vida e diz com um sorriso que me desmonta: “Da onde vem o ronronar do gato? É da barriga? É da boca? É da cabeça?” Rio porque a doçura do menino toca minh’alma feito o seu assobio.
 
Agora eu não sei se ele é menino, filhote ou passarinho, só sei que ele faz um barulho gostoso quando flexiona os lábios e sopra uma música. Meu coração faz uma percussão com o assobio como pandeiro num samba gostosinho que a gente acompanha batendo no canto da mesa. 
 
Olha, menino, o seu assobio está fazendo uma barulheira dentro de mim.

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