A beleza do inverno

Por: Maria Luiza Salomão

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Neste inverno, vi uma paisagem diferente.  Mais espaços, as árvores limpas em desenhos retorcidos, na singularidade das formas como cresceram, sob a ação do vento, das chuvas, até mesmo da poluição (inimigo oculto e mortífero delas todas).  
 
A copa, em contraste com o azul do céu, ou com o nublado cinza, é de renda rarefeita, aberta. Senti o Poli, em sua seca apresentação, mais despojado, mais claro: invernal, sim, mas tão deslumbrante.
 
Nunca tinha reparado, no extremo, as sombras e tons que enchiam os meus olhos de verduras e sombras, na companhia do luminoso sol de outono. E antes ainda do outono, no verão, como a natureza  rica  plena de intumescências e prolixidades que palpitam, invisíveis. Tanta vida ruidosa e estimulante que quase ouvimos o crescimento dos arbustos, árvores, flores, da grama.  No verão e outono, na primavera, há excessos tamanhos, cá nos trópicos.   
 
A árvores das ruas, da Major Nicácio, no entanto, me reclamam atenção: pálidas, cinzentas, majestosas, em despojamento sincero. Francas, as árvores invernais. São simples, são únicas em seu torneio, nas curvas e nas galhadas altivas: mãos abertas ao céu. São lindas. Eu as amo, assim, nuas e cálidas, silenciosamente eternas em suas calmas existências. Tão outras no veraneio, quando outonais ou primaveris. 
 
Basta um leve chuvisco de ontem para hoje, e vejo o alto rendado se fechar, em escuras teias, neste agosto de descobertas.  
 
A palidez do inverno dos trópicos é iluminada: quisera meu inverno humano cumprisse, assim, seu ciclo.  Nua, simples, silenciosa, cálida e de mãos rendadas abertas ao desconhecido, fecharia, então, meu destino final.    De iluminação absolutamente interior, para quem tivesse olhos de me ver, na única forma que minha história tortuosa se fez.

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