Getúlio

Por: Sônia Machiavelli

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Tinha seis anos e já era alfabetizada quando Getúlio Vargas se matou num dia 24 de agosto. Trago ainda nítida na memória a cena a que assisti na manhã daquele dia, na calçada da casa onde morava, na esquina das ruas Ouvidor Freire e Líbero Badaró. Estava saindo para comprar pão na mercearia de Seu Futil, quando vi uma multidão avançando desde a José Bonifácio, gritando um nome que nada  me esclarecia mas me deixava muito curiosa:  “Getúlio! Getúlio! Getúlio!” Voltei correndo para dentro, desci uma escada, contei o que tinha visto à minha mãe. 
 
Ela  me explicou que aqueles homens e mulheres eram operários, que Getúlio era o presidente do Brasil e havia se suicidado. Me falou com cuidado mas  clareza sobre o significado da palavra suicídio. Fiquei muito impressionada. 
 
Depois, à tarde, na escola, ouvi comentários incompreensíveis. Algo porém não me escapava. As pessoas se dividiam nos relatos que faziam, deixando claro que ou amavam o morto ou o detestavam. Os primeiros falavam de forma elogiosa sobre leis trabalhistas; os segundos, de ditadura e corrupção. Pela primeira vez ouvia esses dois palavrões. As qualidades e defeitos do defunto ficavam expostos na relatividade dos pontos de vista das mais diversos indivíduos que meu olhar infantil alcançava: vizinhos, professoras, diretor de escola, comerciantes, pais de colegas. 
 
Muito tempo depois, já adulta, revendo os fatos, percebi que nunca houvera unanimidade sobre o protagonista  daquele gesto extremo. Se existia de um lado  reconhecimento às leis trabalhistas implementadas e ao direito do voto feminino (uma reivindicação das mulheres brasileiras que começara com o século), por  outro  ouviam-se  críticas ácidas àquele que se alçara à presidência da República, onde ficou por 15 anos, pela via do golpe militar. Voltaria cinco anos depois,  em 1951, eleito democraticamente, mas não concluiria o mandato. Seriam necessárias décadas para que aquela tragédia fosse devidamente digerida pelos brasileiros. E a  tal ponto  suas sequelas se tornaram graves que, de lá para cá, seis presidentes da República não concluíram seus mandatos no Brasil. A isso acho que podemos chamar de precariedade democrática. 
 
Quando chega agosto o episódio da infância emerge e me leva a refletir, agora já com as informações que ao longo das décadas venho reunindo. A elas acrescento o filme Getúlio, de João Jardim,  que ajuda a lançar luz sobre tal período difícil para o  Brasil. Como toda obra de arte, ele nos auxilia a compreender a realidade em suas facetas complexas; no caso, nosso atual contexto político, a falta de projeto de país, a insolvência moral que coloca no saco da indignidade a maioria de nossos políticos- uns presos, outros investigados, poucos sem a pecha da corrupção sobre seus ombros.
 
Produção de 2013 que o Netflix disponibilizou para os assinantes, Getúlio tem o  magnífico Tony Ramos como protagonista da  história  que conta os últimos dezesseis dias de Getúlio Vargas. Como numa autobiografia, este  começa a narrar-se com a frase “- Eu fui ditador e não me arrependo.”  A  fotografia do reconhecido Walter Carvalho,  em tons escuros e  meia luz, traduz  o clima pesado e angustiante  que  rapidamente introduz o público na tragédia do presidente.  Drica Moraes como a filha Alzira, muito devotada ao pai;  Adriano Garib na pele do enigmático Gregório Fortunato, mandante do crime que desaguaria no suicídio;  Alexandre Borges personificando  Carlos Lacerda, apelidado “O Corvo”, estão perfeitos nos seus papéis e levam o  espectador  a mergulhar,  já nos primeiros minutos de exibição, no contexto sinistro dos anos 50, quando a maioria da população acreditava  erroneamente  que o processo de redemocratização seguia bom curso.
 
É na Rua Tonelero, no Rio de Janeiro, que o governo de Getúlio Vargas sofrerá o golpe fatal, através de comparsas contratados por subordinados seus, mas sem o seu conhecimento. A bala que ceifou a vida do major da Aeronáutica  Rubem Vaz, e não a  vida do jornalista Carlos Lacerda, como era o propósito, decidia o fim do homem que havia acabado com a República Velha e iria, a partir do atentado, vagar tenso e amargurado pelo  Palácio do Catete assoalhado em  madeiras nobres, com afrescos nos tetos, lustres de cristal, escadarias... E telas de onde o marechal Deodoro da Fonseca parecia  observar tudo com o olhar indiferente dos mortos. 
 
Após a morte de Vaz, que atuava como segurança do jornalista Carlos Lacerda, este intensificou sua campanha de oposição ao presidente, fazendo uso da célebre oratória inflamada e da grande força argumentativa. Com isso levou  a mídia a cobrir o caso em tipos garrafais e sucessivas manchetes que cobravam a renúncia de Getúlio. As acusações a políticos corruptos, envolvidos no plano do assassinato, e a denúncia de relações políticas promíscuas, que vieram à tona em poucos dias, tornaram o Catete um esgoto  aberto, e o ar se tornou, dia após dia, irrespirável.  Getúlio não suportou a pressão. 
 
No livro Tancredo (Neves) fala de Getúlio (Vargas), o futuro presidente eleito e não empossado, então muito jovem mas já influente, diria que “todos nós, que tínhamos acesso ao palácio, constatávamos que, após esta última crise política, uma sensível modificação se operava no comportamento de Getúlio Vargas. O homem alegre e comunicativo de antes havia se transformado num misantropo. A imagem que passara a refletir era a de um solitário amargurado, abismado na sua misantropia, sem confidentes, e que, com as mãos cruzadas nas costas, vagava pelos salões do palácio, num típico alheamento de sonâmbulo. Entre os amigos, esta pergunta era obrigatória: “O que há com o presidente?”
 
Tony Ramos está mais do que convincente, quase irreconhecível no papel do homem que vê o mundo desmoronar no seu entorno e só se entrega morto, legando aos pósteros sua carta-testamento que tem aquela  frase de impacto sempre lembrada: “Saio da vida para entrar na história”. A carta foi lida no enterro por João Goulart, que eleito presidente do Brasil com a cartilha getulista, foi deposto em 1964 por um golpe militar que mergulharia nosso país numa  ditadura que durou 21 anos. 
 
Carecemos de mais filmes como este do produtor, roteirista e diretor João Jardim. Filmes  que nos mostrem nosso passado para que possamos escolher com mais lucidez nossos representantes e estar  atentos a uma possibilidade de farsa- a repetição traumática da história. “History, Stephen said, is a nightmare from which I trying to awake”, escreveu James Joyce no Ulysses.
 
A frase está na abertura de outra obra de arte, Agosto, de Rubem Fonseca, que trata dos mesmos  tema e angústia. Fica para outro dia o comentário a respeito deste impressionante romance  cuja narrativa começa com observação sobre palavra usada por Lacerda- “Kakistocracia- governo pelos piores elementos da sociedade.” Lançado em 1990, portanto há 27 anos, Agosto aborda as mesmas questões que hoje se reúnem sob o nome  Lava- Jato. O Brasil não muda; e precisa mudar.

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