CIGANOS

Por: Isabel Fogaça

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Atrás do vidro da janela da sua sala mora uma abelha, e enquanto desço o meu dedo indicador no caminho da sua sobrancelha, a cortina se move, e a abelha zumbe. Aos finais de semana mudamos para algum lugar, ora estamos na cidade, ora de chinelos de borracha firmes na terra. Na sua casa dormimos ao som dos carros furiosos destinados à rodovia, e pela falta do mato, o grilo não cricrila. Na rua da minha casa não há pedintes de moedas, não há um mercado com grande variedade de queijos que até caem da geladeira ao chão, há apenas um monte de abelhas como a que estava presa no vidro da sua janela.
 
Você me apresentou um menino choroso e uma menina que usa saia de bailarina e, então, o meu nome foi trocado por um parentesco que não havia dentro do meu dicionário. Apesar de eu ter me tornado tia, e você genro e cunhado, não estamos presos a vínculos parentescos, vivemos transitando entre família, amigos, e senhoras com carrinhos de supermercado que você trata como se fossem do seu sangue. 
 
Entre o transitar de ambiente, e as pessoas que nos fazem rir, há uma coisa que é só nossa, e eu chamo de ciganagem. Coincidentemente ou não, às vezes, você fala de comprar uma rede, ou sobre dormir numa barraca  na praia como nômades.
 
Nossos planos não incluem nada além de comer coisas que vêm da terra, e cozinhá-las ao som de James Brown. Uso sua camiseta, te vejo sorrindo dentro do aparelho de inalação, à noite cubro seus pés numa tentativa falha de esquentá-los, e você chega bem pertinho porque parei de respirar de modo barulhento. Calculo nossa rota, e sinto que estou onde eu queria estar. Sem presunções, sem regalias, como dois ciganos. 

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