Lodosas pedras

Por: Angela Gasparetto

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Já trilhou lodosas pedras. 
 
Cruzou espinhosos caminhos, cortou trilhas, fez meia volta. 
 
Já andou exausta por estas travessias tendo como apoio apenas o seu frágil bom-senso e um coração que às vezes gritava.
 
Já cruzou tantas encruzilhadas, apenas com a esperança de companheira. 
 
Já dirigiu insana pelas madrugadas e já quebrou todas as regras da chamada boa educação, quando só lhe restava uma dor que lancinava. 
 
Já passou inúmeras noites com os olhos abertos segurando um vulcão que nunca explodia.
 
Já recebeu muitas pedradas, atirou tantas outras, mas no fim daquela estrada, reuniu-as todas para calçar um caminho chamado sobrevivência. Sobreviveu.
 
No entanto, já foi obrigada a abaixar a cabeça por inúmeras vezes e teve que segurar o choro por alguém e sorrir mesmo destroçada por dentro.
 
Já abdicou de seus sonhos e há tempos vem aceitando a realidade que negou por muito tempo.
 
Já contornou muitos rios, atravessou muitas pontes. Foi forte por demasiado tempo. E ainda tem que ser. Juntar seus pedaços e de outros, achar graça na vida que mostrou sua face mais cruel.
 
Já teve que abrir caminhos inacessíveis, estreitar relações que não eram sua atribuição, apaziguar uma guerra que tinha mesmo era vontade de começar.
 
Quase ninguém sabe, mas por baixo do seu sorriso luminoso, esconde todas estas lutas insanas, sonhos quebrados ou  apenas recomeçados, decepções não esperadas e algumas dores agudas que muitas pessoas jamais sentiram. 
 
Sim; hoje silenciosa escala íngremes montanhas, quebra paradigmas e remove destroços.
 
E hoje também aprendeu que a função de recomeçar, espalhar alegrias e fazer a engrenagem funcionar é toda sua;  e só por isto precisa se manter demasiada altiva, ainda curvando a cabeça; demasiada diplomática, mas enfrentando seus demônios interiores; e principalmente demasiada forte, negociando com sua extrema fraqueza.

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