Crônicas do Crack

Por: Victória Bernardes

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Há muitos equívocos e preconceitos propagados a respeito do crack, prontamente rebatidos por quem teve contato direto com o universo da droga. Seu consumo é amplamente disseminado, independente de classe social.
 
Há anos convivendo com usuários do crack em seu trabalho, o escritor e médico psiquiatra Luís Marra tem opiniões fortes sobre o assunto. Para ele, "a cracolândia continuará migrando, pois é um lugar em que se tem a ilusão de liberdade plena, que atrai gente de todas as classes. Enquanto as autoridades se preocuparem mais com o lugar e não com as pessoas, a cracolândia resistirá".
 
A realidade de usuários intensos desse psicoativo inspirou Luís Marra a escrever suas Crônicas do Crack, livro que a editora Hedra lançou no dia 17 de agosto.
 
Autor também de O Coletivo Aleatório e  O Diário Perdido do Jardim Maia, no campo literário, além de obras de referência sobre o assunto, Marra acredita que os maiores perigos a serem cometidos no combate à droga são as políticas públicas equivocadas, que não levam em consideração as peculiaridades da dependência do crack, e o preconceito, que atinge toda a sociedade, inclusive médicos e os próprios usuários. “O pior do crack é, sem dúvida, sua devastadora dependência”, acrescenta Marra.
 
Crônicas do Crack é um livro de relatos – em formato de crônica, conto-crônica ou depoimentos estilizados – que retrata de maneira literária os usuários de drogas psicoativas, mais efetivamente o crack, a partir de depoimentos que autor colheu ao longo de 15 anos nos quais vem trabalhando como médico na Zona Leste de São Paulo.
 
A obra também se destaca por incluir a descrição do “making of” das crônicas, os bastidores (depoimentos pessoais, observações, opiniões, dados complementares) da obra.
 
Marra passou a ter contato com o mundo do dependente ao visitar uma cracolândia na região de São Miguel Paulista. Depois disso, iniciou um projeto de teatro na comunidade e verificou o poder curador da arte entre essa população.
 
Em Crônicas do Crack, ele retrata de maneira crua a vida sombria de figuras trágicas que precisam de ajuda em sua desesperada luta contra o vício. Gente como os muitos usuários que hoje se encontram espalhados pela cidade, após uma temerária operação deflagrada pelo governo paulista na região conhecida como Cracolândia. 
 
Se o cronista é um “farejador do cotidiano”, como define Antônio Cândido, a matéria-prima de Luis Marra é bruta, retirada da periferia, onde as benesses mais básicas da sociedade organizada – saúde e educação – estão longe de serem satisfatórias, e a presença do tráfico é parte do cenário.
 
Como médico, Marra tem uma missão. Como escritor, ele se aproxima de um gênero que disseca as mazelas sociais e filia-se a um caminho entre o documental e o literário, já percorrido por nomes como Zuenir Ventura e Drauzio Varella.
 
Mas o que ele pretende com suas Crônicas do Crack não é o engajamento intelectual em prol de uma causa, que poderia retirar do livro todo o seu encanto. Entre um e outro relato, emergem personagens que fazem vislumbrar a vida além do crack: relações afetivas, epifanias, o embate entre a culpa e o prazer.
 
“A crônica não é expressão da verdade”, explica o autor. “Ao contrário, ela é uma verdade da expressão armada como se fosse a realidade.” 

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